Diferença entre revisão salarial e aumento real do salário

Saiba por qual razão um aumento de salário pode não significar um padrão de vida melhor.

Diferença entre revisão salarial e aumento real do salário, gráfico de barras crescente

Como a inflação afeta o aumento do salário. - Foto: Pixabay

Ao ler notícias sobre greves em estatais ou em outra parte do setor público, é muito comum que entre as exigências dos servidores esteja o aumento real do salário. Em outros momentos, é possível que também esteja em pauta a revisão das remunerações. Pode não parecer, mas há uma grande diferença entre revisão salarial e aumento real do salário.

Por envolver dinheiro, o tema é muito discutido entre os servidores e costuma ser pauta de sindicatos, parlamentares e economistas. Porém, antes de mostrarmos a diferença entre os termos, é preciso que você entenda o conceito de inflação e como ela afeta o nosso cotidiano. Afinal, tanto a revisão salarial quanto o aumento real do salário se baseiam nela.

O que é a inflação?

Ao assistir um telejornal, é muito comum ouvirmos sobre a inflação e o quanto ela aumentou nos últimos meses. Geralmente, o noticiário também associa o índice com a cesta básica para que seja mais fácil entender o seu impacto no dia a dia.

Um dos principais medidores da inflação nacional é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Ele costuma ser utilizado por bancos, pelo mercado financeiro e também pelo governo federal.

Em suma, a inflação explica o aumento ou queda dos preços de serviços ou produtos. Para o consumidor, ela representa justamente o custo de vida, pois alimentos, energia elétrica, água, gás, escola e outros itens estão associados à inflação.

Se antes, com R$ 20,00, você conseguia comprar arroz e óleo e, com o passar do tempo, a quantia já não é mais suficiente, a causa está na inflação. Teoricamente, o aumento não deve causar prejuízos ao trabalhador, pois o governo costuma revisar o salário mínimo, algo que vamos mostrar mais para frente.

E o que causa a inflação?

A inflação pode ser causada por vários motivos. No entanto, existem três que são considerados os principais e que afetam diretamente as pessoas:

  • Fator I - oferta e demanda

O primeiro fator da inflação é a oferta e a demanda. Quando há uma grande demanda por produtos e serviços e a oferta não consegue acompanhar a procura, a tendência é que o preço suba. Geralmente, isso ocorre quando a economia está indo bem e a população possui mais dinheiro para poder comprar.

No entanto, em certos casos, algum tipo de produto pode se tornar escasso. No início da pandemia provocada pelo novo coronavírus, os preços do álcool em gel e de máscaras, por exemplo, subiram bastante por causa da procura das pessoas. O mercado não tinha uma grande oferta e consequentemente ambos ficaram mais caros. Mesmo com a economia indo mal, houve inflação para esses produtos.

  • Fator II - monopólio

O segundo fator que costuma causar inflação é o monopólio que uma empresa pode ter sobre algum tipo de produto ou serviço. Imagine que só uma empresa consiga vender farinha de trigo em todo o país. Por não ter concorrência à altura, ela pode colocar o preço que quiser, fazendo com que os custos para o consumidor se elevem arbitrariamente.

Na maioria dos casos, monopólios são impedidos. Para tornar o mercado mais saudável, o governo cria leis dificultando que uma única empresa seja dona de todo um setor da economia. É por isso que fusões ou compras de grandes companhias são analisadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

  • Fator III - aumento no custo de produção

Por fim, pode ocorrer que os custos de produção de alguma mercadoria subam para a empresa. O aumento pode se dar devido ao preço da matéria-prima, pelo processo de produção, pelo aumento de salários dos funcionários, juros de uma dívida da empresa ou até mesmo quando o governo decide criar um novo imposto ou elevar um já existente.

Para não ficar no prejuízo, ou mesmo para não diminuir a sua margem de lucro, a empresa tende a repassar o aumento do preço para o consumidor. Se o seu custo de produção subiu 1,5%, é bem provável que haja um aumento de 1,5% no produto final. Quem paga a conta final é o comprador.

Um exemplo muito claro desse aumento repentino de preço ocorreu nos anos de 1970 com a Crise do Petróleo. Naquela época, os principais países que fornecem petróleo decidiram parar de vender o produto alegando que estavam recebendo baixos valores no valor do barril.

O petróleo ficou escasso e, com isso, mais caro. Consequentemente, todos os produtos derivados dele tiveram um aumento de preço, gerando inflação. As coisas só voltaram ao normal após muita negociação, mas, mesmo assim, houve um registro de aumento nos preços depois que houve a normalização.

Inflação em excesso pode ser prejudicial

Apesar de ser um fenômeno normal, se a inflação não for controlada, ela pode se tornar prejudicial ao país. Com a inflação muito alta, os salários não conseguem acompanhar os novos preços dos produtos e serviços e as pessoas passam a consumir menos. Em casos extremos, a população passa por necessidades. A Venezuela é um exemplo recente de como a inflação descontrolada pode empobrecer a população.

O governo possui mecanismos para conter a taxa de inflação ou mesmo fazer com que ela suba se for necessário. Um dos principais é a taxa de juros estipulada pelo Banco Central, a Selic. Entretanto, nem sempre os mecanismos funcionam e crises podem surgir por diversos motivos.

Inflação negativa é boa?

Então, quer dizer que inflação negativa é boa? Na verdade, não. A inflação negativa, também chamada de deflação, é um mau sinal para a economia. Na maioria dos casos em que um país passa por deflação, isso significa que a economia está retraindo.

Se lembra de que falamos da lei da oferta e da procura? Se a procura por algo aumenta, o preço sobe, certo? Por outro lado, se ela diminui, o preço cai. Durante uma recessão econômica, serviços e produtos são menos procurados, pois a pessoas possuem menos dinheiro. Sendo assim, os preços caem. Com a queda, vem a deflação.

Portanto, a inflação é algo bom, desde que controlada e com a economia permitindo que o trabalhador tenha mais recursos. E agora que você sabe o básico sobre inflação, podemos te explicar a diferença da revisão e do aumento salarial.

O que é a revisão salarial?

A revisão salarial é o ato de reajustar a remuneração do servidor público ou do trabalhador em geral de acordo com o índice de inflação. O objetivo é que o poder de compra permaneça o mesmo e o indivíduo não tenha prejuízo. A revisão está prevista na Constituição Federal.

De acordo com o Inciso X do Artigo 37, “a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4º do art. 39 somente poderão ser fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices”.

Como funciona a revisão salarial?

Imagine que um servidor ganhe R$ 2.000,00 por mês. Com esse salário, ele consegue pagar o aluguel da sua casa, contas de luz, água e gás, além de fazer o supermercado. Com isso ainda sobra dinheiro para que ele gaste com outras coisas ou mesmo tenha a opção de guardar uma parte. Tudo o que a pessoa consegue comprar com seu salário é denominado de “poder de compra”.

No mesmo cenário, imagine que a inflação foi de 5% ao longo do ano. Isso quer dizer que o custo de vida do trabalhador subirá 5%. Ou seja, o salário de R$ 2.000,00 já não irá conseguir comprar todas as coisas que antes eram possíveis.

Para fazer com que a pessoa pelo menos mantenha o mesmo padrão de vida, o governo sobe o salário em 5%, indo agora para R$ 2.100,00. Portanto, apesar da remuneração ter subido, o indivíduo ainda não conseguirá comprar mais coisas. Sua situação apenas continuará como antes já que houve uma desvalorização da moeda.

Por isso, é preciso que você fique muito atento quando é anunciado algum reajuste salarial. Se ele seguir apenas a inflação, quer dizer que tudo irá continuar como antes, havendo apenas uma correção obrigatória.

É justamente por esse motivo que ocorrem muitas greves no setor púbico. Os trabalhadores se sentem prejudicados por prestarem serviço por muitos anos e não ter os seus ganhos aumentados. Afinal, na prática, somente com a revisão salarial, de acordo com a inflação, não há um aumento no ganho real do trabalhador. Seu poder de compra continua sendo o mesmo.

O objetivo da revisão salarial é não prejudicar o trabalhador, mantendo-o na mesma situação de sempre. No final, o desejo dos servidores é que haja um reajuste acima da inflação, que é o que vamos te mostrar na sequência.

Aumento real de salário

Já o aumento real de salário, chamado também de fixação, tem como objetivo dar um ganho real no poder de compra do trabalhador. Esse é o desejo que todo trabalhador quer que seja concedido pelo patrão, em caso de empresas privadas, ou pelo governo, em caso de servidores.

Ao contrário da revisão obrigatória da inflação, o aumento real de salário proporciona um poder de compra maior ao cidadão. Vamos pegar novamente o exemplo daquela pessoa que ganhava R$ 2.000,00.

Naquele cenário de inflação a 5%, seria necessário que seu salário fosse parar em pelo menos R$ 2.100,00 para que ela continuasse conseguindo comprar as mesmas coisas e tivesse o mesmo padrão de vida.

Isso quer dizer que, para que ela tenha um maior poder de compra, o seu novo salário deve subir além dos R$ 2.100,00. Portanto, se o salário da pessoa for para R$ 2.500,00, ele aumentou R$ 500,00. Todavia, o seu ganho real foi de R$ 400,00 já que R$ 100,00 serão para repor a inflação.

Ou seja, para se calcular o ganho real de um aumento salarial, é preciso pegar o novo salário e descontar o salário antigo mais a inflação. Assim, o que sobrar é o que você realmente ganhou de aumento do governo ou do seu chefe.

Na esfera pública, o aumento real de salário ocorre de forma mais rara e geralmente necessita de organização coletiva. Quando isso não basta, muitos iniciam greves exigindo um melhor poder de compra.

Resumo da diferença entre revisão salarial e aumento salarial

Em suma, a revisão salarial é um ato obrigatório, previsto em lei. Sua função é não deixar que o salário do funcionário perca valor perante a inflação. O aumento salarial promove um ganho real no poder de compra do trabalhador, fazendo com que sua qualidade de vida melhore ao permitir que ele tenha acesso a melhores serviços e produtos ou tenha a opção de guardar parte dos seus rendimentos.

Sendo assim, é muito importante que você saiba a diferença entre revisão salarial e aumento real do salário para que possa cobrar seus direitos e também para que não seja enganado quando apenas houver uma revisão de acordo com a inflação.

Carlos Rocha
Redator
Jornalista formado (UFG), atualmente redator no site Concursos no Brasil. Foi roteirista do Canal Fatos Desconhecidos (YouTube) por um ano e meio. Produziu conteúdo de podcast para o Deezer. Fez parte da Rádio Universitária (870AM) por três anos e meio como apresentador no Programa Fanático e como repórter, narrador e comentarista da Equipe Doutores da Bola. Fã de futebol, NFL e ouvinte de podcast.

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