A pedagogia concurseira e o cérebro humano I

Atahualpa e Marly Fernandez explicam algumas das relações existentes entre os ensinamentos propagados pelos diversos cursinhos preparatórios e as bases científicas que regem o funcionamento do nosso cérebro.

* Como os senhores enxergam a atual corrida do concurseiro contra o relógio, cujo alvo é atingir aquilo que os cursos preparatórios e suas "fórmulas de aprovação" ensinam?

[Com relativa preocupação]. Afinal, estamos vivenciando, com raras exceções, a era da denominada tirania do prático, cuja chave do êxito alcança seu ápice através dos cursos preparatórios, dos cursos online e telepresenciais, dos vídeos-aula, das retas finais, dos extensivos e intensivos, das maratonas... Massivas doses de lições enlatadas servidas com eficiência e assombrosa rapidez e estudantes que se esforçam como robôs por copiar tudo o que “ensina” o professor.

Mas tudo isso não deveria fazer sentido? Afinal de contas, o senso comum reinante hoje nos "ensina" que esta é a maneira mais acertada de estudar... Podemos seguir como estamos seguindo?

[Não acredito que seja a maneira mais acertada. Parece existir] um modelo de educação e de formação que não é capaz de impedir a formação de pessoas com um perfil profissional propenso ao automatismo, à memorização, ao descaso ou desconhecimento teórico, às explicações ad hoc .

[Indo mais além, diria, por exemplo, sobre o conhecimento do Direito que, em determinadas ocasiões, as gerações que absorvem essa educação atualmente vigente, anda] carente de um mínimo sentido de adequada preparação acerca das teorias e fundamentos que realmente importam para para essa área.


Podemos continuar fazendo o que fazemos quando se sabe que o modelo atual é abertamente atentatório à atividade de ensinar a pensar e a formar bom conhecimento? De que nos serve ter a barriga cheia de alimentos se não o digerimos, se não se transforma em nós, se não nos aumenta e fortalece?

Podemos seguir priorizando um tipo de ensino cuja principal finalidade parece consistir no encargo de quantificar, massificar e embrutecer o conhecimento? Não, não cremos que podemos seguir como estamos; não podemos continuar aprovando tudo isso com gesto bovino.

E qual seria a alternativa de combate a essa perspectiva educacional imposta a professores e alunos dos cursos preparatórios de hoje?

Se pretendemos, professores e alunos, ser de fato indivíduos comprometidos com um tipo de aprendizado interessante e significativo,temos que atuar como tais. Por quê? Porque educar significa simplesmente ajudar a extrair o melhor de uma pessoa para que possa levar adiante, desde sua autonomia, seu próprio estilo e ritmo de estudo, para entender que cada cérebro é único, que não há uma técnica “universal” para estudar e que ométodo correto (para estudar) é o que melhor se adapta aos interesses, oportunidades, necessidades e recursos cognitivo-afetivos próprios de cadapessoa.

Apostilas com conteúdos específicos para todos os concursos públicos:


De acordo com suas pesquisas, na seara educacional há um problema ainda maior, que diz respeito a questões vinculadas (ou não) a neurociência e formas de estudar. Qual seria?


[Esse problema abordado em nossos artigo] diz respeito] aos avanços e as promessas que derivam das novas descobertas neurocientíficas: o de saber discernir até donde chegam as contribuiçõespositivas e onde começam os limites do que sabemos hoje sobre como aprende o cérebro humano. É que por mais que pareça uma questão altamente acadêmica e especializada, qualquer sociedade epistemologicamente civilizada (ou civilizada, apenas) deve dispor de um critério de demarcação o bastante flexível para permitir o livre exame, mas o bastante sólido para distinguir entre ciência
e pseudociência [falsa ciência].

Isto significa que, dentre as "táticas" ensinadas nos cursinhos, algo pode estar errado na forma como são abordadas algumas das potencialidades do nosso cérebro? E isso acaba tendo nessas escolas um
certo respaldo "científico", quando não o é?

[Sim]. E a razão disso é simples: como o cérebro, graças aos avanços científicos, passou a estar em primeiro plano, escrever [e discursar] sobre sua estrutura e funcionamento confere ao [escritor/palestrante] um caráter mais sofisticado – ou mais “científico” – ao seu discurso.

[Por outras palavras, Alberto, ocorre o que você mesmo embutiu na sua pergunta: busca-se hoje dar esse respaldo científico] a todo um evangelho de sandices, ficções e/ou falsas esperanças. Adenominada “neurocultura” está fazendo com que a cada dia que passa apareçam novos “educadores” (“motivadores”, “turbinadores de cérebro”,“iluminados” e “expertos em” ou “super campeões de” concursos públicos) com mirabolantes promessas de aniquilação de antigos flagelos relativos ao aprendizado, como a desmotivação, a autoestima, o poder da mente, a capacidade ou a perda de memória, entre muitas outras que revelam opiniões desproporcionadamente elevadas de nós mesmos.


Então, podemos afirmar que na "pedagogia concurseira" é cada vez mais presente a tendência de se misturar verdade com mentira (ou conveniência)?

[Sim]. Todo um conjunto de promessas permeadas por uma confusa miscelânea de verdades, semi-verdades e mentiras; promessas que, fazendo bom uso do chamado “efeito guru” (D. Sperber, 2010), gritam para os mais crédulos desde sensacionalistas livros, revistas, blogs, artigos, palestras...,
inspirados em e/ou manipulando uma prolífica fonte de mitos e distorcidas crenças que normalmente vem intercalada com falsos matizes psicológicos
e com afirmações que contradizem frontalmente algumas evidências científicas.


Mas não foram as escolas preparatórias para concursos que "inventaram" isso. Os senhores concordam?

[De fato, não foram. No máximo, essas pessoas ligadas à indústria dos concursos, digamos, assimilaram a ideologia].A realidade é que esta extensa indústria do “neurologismo” (e, omais importante, este fascinante estilo de “academicismo”) está, neste mesmo instante, penetrando (despercebida e sem críticas) no coração mesmo de nosso sistema acadêmico,
por culpa de nossa desesperação por encontrar respostas fáceis para grandes problemas como o aprendizado.

[Isso também acontece] por culpa de nossa necessidade coletiva de soluções rápidas e fáceis, por culpa do admirável desejo de dar aos estudantes o que querem, por culpa denossa tendência a crer em qualquer coisa quando nos anima a esperança de uma satisfação qualquer.

Também por culpa da promoção de determinadas pessoas tidas como "gurus", não acham?

[Exatamente]. Por culpa da fenomenal credibilidade que estas figuras pseudoacadêmicas alcançaram entre o grande público, em um mundo que, ao parecer, esqueceu por completo a importância de avaliar criticamente [não somente todas as afirmações pseudocientíficas, mas também] todas as afirmações científicas.

Ninguém duvida do fato de que as bases cerebrais resultamindispensáveis para o aprendizado, que a causa mais direta ou imediata do aprendizado deve estar arraigada em uma variação da função cerebral e queé necessário construir e manter uma relação com nosso cérebro dirigida a ajudá-lo (ajudar-nos) a desenvolver-se corretamente para o nosso próprio
bem-estar.

Tão pouco existe dúvidas de que nos últimos anos os progressosneurocientíficos no conhecimento do cérebro introduziram modificações profundas em noções fundamentais a respeito da natureza humana,relativizaram algumas crenças, desmitificaram dogmas e lançaram novas luzes sobre questões antigas acerca do comportamento humano, daracionalidade, da consciência, da moralidade, do bem e do mal, do livrearbítrio,do aprendizado, da memória, das relações entre os indivíduos... Alista seria muito larga. Pouco a pouco, o cérebro, motor do conhecimento e fonte de todo comportamento humano, começa a compreender-se a si mesmo.

Mas, [apesar de todos esses extraordinários avanços], ainda estamos no começo de semelhante processo, isto é, que só percorremos muito pouco do longo caminho para uma compreensão fundamental do cérebro.

Os estudos em neurociência, então, podem muito contribuir para esclarecimento de concepções de ensino-aprendizagem atuais?

A investigação na área da neurociência está dando seus primeiros passos e novos estudos refutam, com frequência, as mais recentes descobertas. Como explica Patricia Churchland (2006), nem sequer sabemos como os neurônios codificam a informação; e isso é muito não saber.

[O fato é que, além de ser] muito difícil especificar relações diretas entre os descobrimentos das neurociências e os
diferentes aspectos da estrutura e funcionamento do cérebro, [também] é necessário atuar com muita cautela quando um salto técnico assim permite levar a cabo análises e detecções impossíveis com anterioridade.

[Desse modo], é um engano pensar que há algo de especial e exclusivo nas afirmações que utilizam temas como “turbinar” o
cérebro, poder da mente, aprendizado, inteligência, memória, motivação, etc., para vender-nos conselhos, métodos ou técnicas de estudo poucas vezes fundamentados cientificamente.

Poderiam nos dar um exemplo dessa concepção?

[Um exemplo muito próximo de nós diz respeito aos cursos que prometem ensinar] técnicas de leitura dinâmica e de memorização. [Eles dizem ser possível] incrementar a velocidade de leitura e a capacidade de memorização, [de forma que seria possível até ultrapassar] a velocidade máxima de leitura de que é capaz o olho humano (de aproximadamente 300 palavras por minuto) e as limitações próprias do cérebro humano no que se refere ao armazenamento de informação.

[Mas hoje se sabe que, a rigor], essas técnicas não aumentam a velocidade de leitura ou a memória sem esforço pessoal
e/ou sem diminuir, ao mesmo tempo, nossa capacidade de compreensão e entendimento; quer dizer: ler rápido ou memorizar mais não significa, definitivamente, saber e compreender melhor.

[O que se quer dizer, em resumo é que] as expectativas sobre o que devemos ser capazes de memorizar e recordar, [pouco conseguem] associar-se com o que nossos cérebros são capazes de processar, ainda que isso seja uma quantidade enorme (D. DiSalvo, 2013).

[Portanto] , o bom conhecimento gerado por um aprendizado significativo ou prática deliberada é um logro, uma atividade ou tarefa na qual, além de constante prática, o indivíduo há de estar presente e de experimentá-la (ativamente) em primeira pessoa.

A entrevista continua neste post.

* Entrevista literária e didática baseada no artigo de: FERNANDEZ, Atahualpa; FERNANDEZ, Marly. Usando o cérebro para estudar para concursos públicos. Jus Navigandi, Teresina, ano 18, n. 3635, 14 jun. 2013. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/24680>. Acesso em: 24 fev. 2015

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