Ainda é cedo para reclamar, mas você reclama...

Tem gente que detesta ouvir reclamação. Mas também tem gente que parece amar as lamentações. De que lado você está?

Tem gente que detesta ouvir reclamação, por achar que o ideal é sempre ouvir um "tudo bem". Mas também tem gente que parece amar a vida de lamentações. De que lado você está? Quando ouço dizer que, em geral, os concurseiros são reclamões (reclamam dos requisitos, das organizadoras, das provas, das "máfias" etc) paro para pensar um pouco e vejo o quanto ainda é cedo para tal. E vou além: sei que muita gente passa pelas suas dores, é inevitável não reclamarmos uma vez ou outra, mas tem que chegar um momento para dar a volta por cima.

Pensando no assunto me veio à tona aquele "mantra" do reclamacionismo poético, moderno e popular, que foi intepretado em forma de balada por ninguém menos que Raul Seixas: "Ouro de Tolo". Você já parou para pensar que tudo o que a gente tanto almeja está ali, principalmente aquelas conquistas que os estudos e o trabalho (público ou privado) podem proporcionar? Reparou também que, ainda assim, o poeta se põe a reclamar?

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês... (...)

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Perdoem-me os defensores desse lirismo de poeta. Podem argumentar que é artifício de referenciação poética, uma forma de demonstrar "abnegação" aparente, realçando os valores que o dinheiro não compra, a busca do que é invisível aos olhos mas que é essencial. Podem até dizer que toda a letra é uma bela cartada de marketing que ajudou a gravadora a vender milhões. Mas reflito que "Ouro de Tolo" se aproxima muito de uma espécie de mote depressivo, ou, dito de outro modo, algo que também pode se assemelhar a um vazio espiritual e/ou existencial sem tamanho...

É extremamente raro você encontrar alguém no mundo real, em plena sanidade, que pense desse jeito - com exceção, claro, daqueles que prestam votos religiosos de abnegação de quase tudo na vida material. Disse "quase tudo", porque mesmo estes necessitam de transporte, alimentação, vestimenta, remédios, pagam contas, respeitam leis, enfim, precisam ser cidadãos respeitáveis.

Por outro lado, nem tudo é pessimismo ali: o poeta demonstra uma grande lucidez, ao acreditar, como muitos de nós, que tudo aquilo que é conseguido sem esforço, de fato, pouco pode significar em nossas vidas:

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

É provável que existam pessoas de posses e de vitórias sem lutas, mas que dêm valor às conquistas. Você conhece alguém desse tipo? Sei que são poucas, mas existem, se você souber, me apresente a história... Mas elas são uma exceção à regra. Portanto, é provável que se alguém chegue ao ponto de "ter conseguido tudo o que quis" de uma maneira "fácil", deve realmente ter motivos para reclamar. Afinal, tudo o que foi conseguido sem esforço não o preencheu.

Alguém pode objetar: "você é um tremendo materialista, só pensa em ter, ter, ter e nunca em ser, ser, ser". Não há nada de errado em ser realista e almejar vitórias materiais. Quando você se deparar com alguma doutrina - religiosa ou não - que condene as vitórias na vida material (profissional e financeira, por exemplo),  duvide muito dela. O problema não está no dinheiro, nem em você conseguir alcançar os seus objetivos. O problema passa a existir quando você faz mal uso dessas conquistas. O problema passa a existir quando essas conquistas passam a ser o "Deus" da sua vida. Não existe imcompatiblidade entre ter e ser. O que existe é ser humano querendo avaliar outro ser humano por aquilo que ele tenha, e não pelo que ele seja. Muitas vezes temos privilegiado a aparência e temos deixado a essência para ser usada em letras de música ou belos discursos públicos...

Assim sendo, é cedo para reclamar. Não reclame se o "Senhor tenha lhe concedido o domingo pra ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos". Não reclame se olha no espelho e se "sente um grandessíssimo idiota por saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal". O apóstolo Paulo de Tarso, por exemplo, passou a vida cristã em contentamento pelo pouco ou pelo muito que tinha, dependendo das circunstâncias.

Mas pense bem...

O mesmo "Senhor" que o poeta menciona nos criou tão sábios e capazes de entender que, tanto para você quanto para mim, 10% de capacidade mental é um percentual e tanto! Olhe o que você já fez utilizando essa cota de inteligência? (Inclusive, muitos podem dizer que já fizemos muita "merda" só com 10% de cabeça animal!). Pense no que ainda dá para você fazer de bom com essa cota de intelectualidade!?

Para encerrar falando de concurseiros, o que há de errado em almejarmos ser "um doutor, padre ou policial, que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social"? Ademais, a gente vê tanta coisa errada para tentar consertar aqui na terra, que com certeza não vai dar mesmo tempo para contemplar a "a sombra sonora de um disco voador". Então, prefiro pensar como o concurseiro solitário: evitar reclamar demais dessa vida e aproveitar o poder das palavras positivas.

Ah, não tem palavras positivas para expressar? Não diga coisa alguma, que já será um ótimo começo. Mas depois aja!

Alberto Vicente - alberto@concursosnobrasil.com.br

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