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Redação para quê?

Passar em provas de concursos ou recrutamentos deveria ser uma das últimas finalidades de se aprender redação.

Publicado em 11/10/2012 - 12h51 • Comunicar erro

"Eu quero aprender redação para poder passar no concurso".

Estou fora das salas de aula há algum tempo, mas se ouvisse esta afirmação, em qualquer tempo, lamentaria bastante pela vida profissional/social futura desse aluno. Compreender que a finalidade de se dominar a linguagem escrita serve apenas para dar condições de ser aprovado em um exame significa limitar - diria até penalizar - muito a participação da redação na vida nossa de cada dia. Digo mais: significa até estar relativamente alienado.

Mesmo para os textos escolares, que geralmente serão apreciados por apenas um leitor (que é o professor, visto às vezes como um carrasco da gramática), é preciso prevalecer o ideal de se expressar da melhor maneira possível. O mesmo vale para as provas discursivas e as de redação, cobradas nos concursos, "Enens" ou vestibulares, já que a leitura e a avaliação das mesmas ficam restritas às bancas. Ou seja, o pensamento posto no papel, até por ser mais complexo de ser expresso, precisa mesmo ser visto com mais cuidado, tanto quanto à forma quanto ao conteúdo, independente de quem acabe lendo ao final.

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Quando a redação se torna o obstáculo

É provável que muitas pessoas não vislumbrem sequer parte das verdadeiras implicações do ato de escrever e se limitam a "fazer textos por necessidade". Essa espécie de desapego pela prática da escrita, ou desinteresse por tudo o que se refira a redação, talvez explique o fato de que muitos de nós, hoje (até mesmo os de formação superior em curso ou concluída), ainda estamos sofrendo ao redigir dois ou três parágrafos para uma finalidade específica e ocasional.

Como escrever também é um ato de pesquisar, é muito proveitoso tomarmos nota dos ensinamentos dos professores de Literatura Wayne C. Booth, Gregory G. Colomb e Joseph M. Williams, todos dos EUA, que escreveram o livro A arte da pesquisa, publicado no Brasil em 2005. Embora voltado para o campo da metodologia da pesquisa científica, os autores acabam transmitindo recomendações que serve para todos nós, sejamos estudantes estreando nos meandros da "redação escolar", ou mais achegados ao papel/teclado, ou até mesmo escritores de renome. Fazendo um breve recorte do livro, quero elencar as três finalidades fundamentais do ato de escrever, apontadas por Wayne, Gregory e Joseph. Ao final, ainda quero indicar uma quarta finalidade, tão importante quanto as três primeiras.

1.      Escrevemos para lembrar

Esta é a primeira razão que os pesquisadores norte-americanos apontam para registrarmos por escrito as nossas descobertas. Como sabemos que são raros aqueles casos de pessoas que confiam completamente na memória, devemos sempre cultivar o hábito de registrar, porque:

"O que você não registrar por escrito provavelmente será esquecido ou, pior, será lembrado de modo incorreto. Essa é uma das razões pelas quais os pesquisadores [e por que não incluirmos aqui os redatores?] não esperam chegar ao fim do processo para começar a escrever...(p.9)"

Afinal, porque você acha que as provas de concursos trazem o espaço para o candidato rascunhar? Rascunhando numa prova, rascunhando alguma ideia no ponto de ônibus, na fila do consultório, ou caminhando a passos lentos pelas ruas, enfim, a partir de tais ações colocamos a nossa capacidade de registro escrito em ação, para depois, desenvolver algo mais aprofundado. Muitas vezes uma boa ideia de texto tida num momento em que não dispomos de papel e caneta (ou algum dispositivo tecnológico) é perdida e jamais recuperada com o vigor inicial. Aconteceu comigo esta manhã, quando necessitei pegar um ônibus coletivo, em razão de ter tido problemas mecânicos com a condução própria. A minha sorte foi portar o livro sobre o qual estou escrevendo agora, uma caneta na bolsa e um pedaço de papel!

2.      Escrevemos para entender

Isto é fundamental. Percebemos claramente nesta afirmativa que o ato de escrever é um ato de aprendizagem. Wayne e Cia dizem que esta é uma das finalidades que nos fazem escrever com maior clareza as relações entre nossas ideias. Ao organizarmos e reorganizarmos nossos pensamentos escritos, observamos relações, contrastes e implicações que poderiam passar despercebidas:

"Escrever induz a pensar, ajudando-o não apenas a entender o que está aprendendo, mas a encontrar um sentido e um significado mais amplos (p.10)"

3.      Escrevemos para ter perspectiva

É por isso que a produção do conhecimento escrito - ato de registrarmos os pensamentos no papel - nos coloca sob uma "nova luz", nos levando a pensar melhor, revigorando a nossa memória de curto e longo prazo e nos tornando mais críticos:

"Quase todos nós - estudantes e profissionais - achamos que nossas ideias são mais coerentes no calor de nossa mente do que quando transpostas para as frias letras impressas. Você melhora a capacidade de pensar quando estimula a mente com anotações, esboços, resumos, comentários e outras formas de por pensamentos no papel. Mas você só pode refletir claramente sobre esses pensamentos quando (...) os fixa numa escrita coerente (p.11, o grifo é nosso)".

4.      Escrevemos para nos incluir socialmente

Esta quarta finalidade, de tão óbvia para muitos, também passa despercebida. Do mesmo jeito que o homem é aquilo que diz, que faz, ou que lê, ele também é aquilo que escreve. Lembremos que isso não significa dizer que o romancista conta as suas histórias porque já passou por aquelas experiências, ou que o médico escreveu aquele artigo sobre uma patologia por ter sido acometido por ela. Por outro lado, se você está recrutando pessoas para uma vaga de emprego e testa os candidatos por meio de redação, o que poderá ser levado a pensar acerca do "nível geral" simplesmente por ter contato com seus pensamentos escritos?

Portanto, encerrando esta homenagem aos escritores de A arte da pesquisa, relembro que a escrita também é uma chave para abrir portas, da mesma forma que abriu para o romancista, o poeta, o médico, o biólogo, o tradutor, o revisor, o professor e o candidato ao cargo público ou privado, além de todos os outros cidadãos. Nossa sociedade está essencialmente assentada na cultura escrita e esta não está abalada porque revolucionamos as comunicações de massa com o celular, a televisão, o cinema e a internet. Muito pelo contrário: todos esses veículos estão dependentes da linguagem escrita.

Pense em pelo menos parte disso da próxima vez que estudar redação.

Alberto Vicente - alberto@concursosnobrasil.com.br

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