O grande lobo do funcionalismo público

Vencida a fase de aprovação e nomeação, você terá que ser aprovado novamente, mas como funcionário público.

Muitos concurseiros e concursandos, se não assistiram quando foi ao ar (como eu), já devem ter conferido no YouTube (veja acima) o trecho da entrevista em que o cantor e compositor Lobão fala do funcionalismo público, transmitida pela Rede Record, há cerca de dois anos. Em breves palavras aqui, irei defender o funcionalismo público menos por ser um deles do que pela experiência.

Relembrando um pouco por escrito, o artista diz que " a pior miséria do mundo é o funcionalismo público" e que "85% dos jovens desejam ser [enfatiza] 'funcionário público'", mas também afirma que "funcionário público é a mosca que pousou no cocô do cavalo do bandido, com raras exceções" e se pergunta como é que uma pessoa jovem, depois de tudo o que aconteceu nos anos revolucionários (60,70) ainda tem esse retrocesso de se perguntar qual concurso deseja fazer.

Em certa medida, Lobão não faz mais do que refletir a visão relativamente clichê da população geral de que funcionário público é uma "raça de gente que ganha no mole para prestar um péssimo serviço". Por outro lado, no entanto,  a sua visão carrega a chaga da configuração histórica do estilo de "praticar política e de ser corrupto" que assola parte do âmbito político brasileiro, desde a sua fundação. Afinal de contas, os escândalos sucessivos de uns poucos servidores públicos e de uns poucos homens eleitos por nós para exercer um mandato que, em princípio, deveria ser honesto, sem dúvida podem ser mesmo capazes de fazer com que o nosso pensamento seja tão, digamos, ressentido assim. Ainda bem que você, concurseiro ou concursando contemporâneo, que está pensando em uma aprovação agora, ou daqui a um, dois ou três anos, vai ser diferente, não é? Afinal, é em você e nos já funcionários públicos honestos do Brasil (a grande maioria,claro!) que todo um país deposita a confiança e espera que dias melhores possam chegar sim!

Apostilas com conteúdos específicos para todos os concursos públicos:

Quero transmitir algumas lições e/ou constatações que podem ser tiradas de boa parte das afirmações de Lobão. E não se assuste com elas, pois darão uma injeção de ânimo tão relevante quanto o melhor futuro artigo ou livro de Willian Douglas:

1.      "Primeiro faz a sua vida. Por que uma cara jovem não vai abrir uma empresa, abrir uma birosca..."?

Para o cantor, parece que, necessariamente, todo aspirante a funcionário público não tem "tino empreendedor", nos moldes de um Bill Gates ou de um Steve Jobs, como ele mesmo cita. Isso acontece primeiro porque ele não considera o fato da pessoa estudar por anos a fio para um grande concurso como algo que demostre que se tem tino empreendedor, segundo porque ele acha que todo aquele que sonha com aprovação em concurso e vida futura no funcionalismo é acomodado por natureza.

Discordo, e não apenas por saber que a visão "empresarial" de muito concurseiro é uma realidade, mas porque sei que, muita gente, mesmo depois de aprovada em um concurso e assumida a vaga não para de se "arriscar na vida", profissionalmente falando (mas não apenas nessa área). Eu conheço algumas delas e se tivesse tempo poderia detalhar. Para citar apenas um caso, conheço um que é servidor há quase trinta anos na Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia, nunca fez corpo mole no trabalho, nunca precisou faltar serviço e é - como o  próprio Lobão diz - "dono de birosca" com muito orgulho. Essa "birosca" é de onde ele tira mais dinheiro do que tira mensalmente no seu cargo público: já tem carro, as filhas todas concluíram o ensino superior (uma estava concursando para a Receita Federal, se bem me lembro) e a casa está montada. Se isso não é ter "tino empreendedor" não sei mais o que significa essa expressão.

Outra coisa: o artista do rock nacional diz que o jovem não deve ficar acreditando o ideal de uma vida é passar em concurso, virar funcionário público (que para ele é algo medíocre) e depois "arranjar uma mulherzinha e fazer um filhinho e ir pra pizzaria no domingo". O que ele desconsidera é que para muita gente não há demérito algum em se lutar por essas conquistas, que ele tanto menospreza. Ouvindo isso do Lobão parece que a única vida boa é uma espécie de "vida louca", na gíria dos malandros modernos.

2.      "Aí o cara, pra ter essa vidinha arrumada, vai pro funcionalismo".

Outra ilusão. A grande maioria do funcionalismo público não tem uma "vidinha arrumada", principalmente no que diz respeito às finanças. Pequena parcela dessa gente ganha o que hoje poderia ser considerado um bom salário, o restante vai sobrevivendo, muitas vezes com duas ou três ocupações, públicas ou não, temporárias ou efetivas - isso sim é que é a realidade, muito comum em diversas categorias, como enfermeiros, médicos, professores...

3.      "Você tem várias maneiras de se virar na vida, funcionalismo público deveria ser a última".

O concurseiro ou concursando já se vira na vida. O que você pensa que ele faz enquanto espera uma aprovação? Geralmente estuda, trabalha, corre atrás, investe em si mesmo, enfim, batalha por seu espaço.

A dica que vai aqui é esta mesmo: continue lutando para alcançar seus objetivos. Se você tem grande tempo para somente estudar, já que tem uma família que lhe dá um suporte material bom, continue fazendo valer esse esforço e se dedicando ao funcionalismo público sim. Até mesmo quando passar a ser funcionário público, acredito que não vá estacionar no tempo, se acomodar, como Lobão pensa.

Porque o que tenho visto é gente que, mesmo com emprego estável e conta bancária sossegada, continua desenvolvendo outras atividades, seja pensando em um concurso maior, seja tocando a sua própria empresa, seja tocando o seu próprio projeto profissional, mas sem macular a sua imagem de funcionário público. Um dos segredos dessa caminhada é ter a consciência de que mesmo depois de aprovado e nomeado, você continuará sendo provado, mas como funcionário público e como ser humano proativo.

E pensando bem, você será provado em outras áreas também, basta não se acomodar, até porque nós, seres humanos, somos dinâmicos por natureza. Por mais que o Lobão diga que essa gente do carimbo é gente que se contenta com pouco, não desmereça nem o carimbo com que você lida no serviço público, nem desmereça a sua vida, o seu crescimento.

4.      "90% do funcionalismo é cabide de emprego".

Eu não poderia encerrar estas considerações sem combater esse discurso. Então, quer dizer que as conquistas constitucionais, sempre em favor da realização de concursos públicos (em detrimento de indicações e de ocupações de postos fantasmas, por exemplo), não valeram de nada?

Sabemos que ainda existem escalões da administração que, essencialmente, são formados por gente não concursada, cargos políticos, etc, mas não se pode desmerecer o funcionalismo público somente porque alguém denunciou casos de corrupção nesse setor. Casos esses provocados às vezes por gestores imprudentes que empregam determinadas pessoas para simplesmente receber o ordenado ou garantir apoio político (até votos) - isso não pode servir para representar toda uma categoria de servidores bem intencionados e ordeiros de toda a nação.

Portanto, concurseiros e concursandos do Brasil (futuros funcionários públicos!) espero que guardem na consciência pelo menos parte dessas considerações e as apliquem em suas vidas públicas. Não se esqueçam de que ainda vale à pena ser honesto neste país, porque se assim não for, pregaremos e combateremos aquilo que não vivemos.

Até a próxima. Sucesso nos concursos e na vida!

Por Alberto Vicente

Compartilhe

Comentários

Mais Dicas