Os concurseiros especiais

Cada vez mais oportunidades estão sendo abertas para candidatos com deficiência em concursos públicos.

Conheço um homem de nome João (o nome aqui é fictício, claro) que é portador de necessidade especial.  Teve paralisia infantil, hoje tem seus 35 anos, é pai de três filhos entre 10 e 15 anos, está desempregado e sem perspectivas maiores do que continuar exercendo sua profissão, que é a de pintor de faixas. Sua necessidade especial consiste na limitação de um braço e de parte das duas pernas, mas ela não o impede de se locomover, de andar de bicicleta, de caminhar, de ir à igreja, de conversar, de pintar faixas e de fazer muito mais tarefas. De certa maneira, é sobre essas outras tarefas as quais João não está impedido de executar que tratarei no presente e breve artigo.

Conversando com João, descobri que ele não tem estudo convencional. Disse que "pisou" na escola um período de dois anos na infância e depois parou de frequentá-la definitivamente. O tempo passou, a escola fechou e hoje nem o documento que comprove sua passagem ali existe mais.

Apostilas com conteúdos específicos para todos os concursos públicos:

Recentemente voltou a estudar, entretanto, durou pouco sua empreitada nessa nova escola. Foi incluído numa turma de Educação de Jovens e Adultos, na primeira série (hoje segundo ano do Ensino Fundamental), no turno noturno. Contou-me que a experiência curta foi muito boa, conseguia fazer as tarefas com tanta desenvoltura que a professora estava seriamente pensando em lhe colocar numa turma do quinto ano (4ª série do Fundamental).  Para resumir, desconversou um pouco, mas claramente entendi que abandonou a escola logo nas primeiras dificuldades, principalmente depois de afirmar que "estava velho demais para voltar a estudar".

Toda essa curta narrativa contada por João foi motivada pelo próprio, ao me dizer minutos antes que "hoje em dia a gente precisa ter "estabilidade" [isso mesmo, usou esta palavra] no emprego e somente os concursos para oferecer isso". Foi aí que me empolguei e aproveitei a sua deixa para dizer:

"João, o que você disse é verdade. Inclusive tem sido cada vez maiores as chances de gente como você, que possui algum tipo de necessidade especial [na intimidade, mencionei 'deficiência' mesmo, palavra que ele também usou]. Então, por que você não toma coragem e termina pelo menos o Ensino Médio? Há muitos concursos hoje aceitando gente como você, inclusive existem cotas específicas que lhe beneficiariam diretamente, dependendo de sua classificação em um concurso!"

João concordou com tudo. Completei dizendo que ele devia aproveitar os outros talentos que Deus lhe tinha dado: é cristão, sabe "pregar" a Bíblia em igrejas locais com uma desenvoltura que muita gente "normal" não tem, pronunciando muito bem as palavras (quem lê a Bíblia sabe do que estou falando) e discerne muito bem parte dos fatores que explicam a condição do homem neste mundo contemporâneo, cheio de problemas trabalhosos e falta de oportunidades, etc, etc...

Ao tempo em que dizia isso, imaginava João em outra situação, bem diversa da que via ali: ele na casa humilde da mãe costureira, sem condições de oferecer a ela algo além do que já oferecia, a casa sem porta, sem sofá, sem armário, sem cama, sem colchão, enfim, uma vida com outras tantas deficiências. O fato era que imaginava João sendo, por exemplo, um bancário, um técnico administrativo, um enfermeiro, um professor de Educação Especial ou de qualquer outra disciplina, um estudante de Direito ou de Teologia.

Ora, se João era capaz de ir à igreja sozinho ou com a família e até de pregar, se conversava com tanta fluência, se pintava faixas como um profissional esmerado (não estou desmerecendo o ofício de João, não é essa a questão aqui!), então só bastaria que ele fosse um pouco mais usado por Deus para entender que não estava tão velho assim para ousar sonhar outros sonhos, como José do Egito o fez!

Tudo isso só foi escrito para animar os portadores de necessidades especiais que neste momento estão encarando os processos seletivos da vida, os mesmos que João parece que não vem tendo vontade (?) de enfrentar. Vou ser o mais óbvio que posso neste momento e lhes digo: não desistam dos seus sonhos, ousem mesmo sonhar um pouco mais, como diz a letra da canção. Estudar para a vida e para os concursos não vai impedir vocês de continuar exercendo outros ofícios, seja pintar faixas, seja trabalhar como pedreiro, mecânico, operador, atendente, zelador ou desempenhar qualquer outro trabalho, igualmente nobre!

Não perguntei, mas podia ser que que João se saísse com a justificativa de que não havia tido mesmo oportunidades de "ser alguém na vida". Não vou julgá-lo pelas suas tomadas de decisões passadas, até porque não tenho como medir como era a vida de um portador de necessidade especial pobre de duas ou três décadas atrás. Mas por ter menos de quarenta anos, por que desistir assim, se tinha saúde, se as matrículas em escolas públicas estão sobrando, se projetos de inclusão parecem estar ganhando corpo a cada ano? Ademais, se tivesse mais de quarenta, o que o impediria de tentar? Por que não tomar decisões presentes e futuras diferentes?

É isso, concurseiro especial, por mais que estejamos a anos luz de uma realidade ideal para você, não desista de lutar.

Um abraço e feliz concurso novo!

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