Os concursos e a qualificação profissional

"Estamos testemunhando uma geração jovem frustrada pela disparidade crônica entre habilidades e emprego", aponta relatório da Unesco

Quando se pensa na relação entre concursos e qualificação, penso que existem dois caminhos e uma constatação. A constatação é: concursos não são indicativo de que a busca por qualificação profissional do brasileiro está em alta. Embora todo concurseiro certamente já saiba disso, nunca é demais relembrar. Agora, os caminhos:

O jovem que termina hoje o ensino médio (primeiro caminho) e investe todo o seu gás em concursos públicos não está buscando qualificação profissional - pelo menos diretamente. No máximo, ele está adiando essa qualificação para um momento que considere mais oportuno. Na verdade, o que ele quer é trabalhar - e trabalhar bem, com o horizonte de projeções voltado primeiramente para a conquista da estabilidade financeira para, aí sim, pensar em cursos e mais cursos.

Uma postura diferente (segundo caminho) é tomada por aqueles que fazem o percurso contrário: antes de se focar nos concursos preferem lutar por espaços nas escolas técnicas, nos cursos de aperfeiçoamento (inglês, informática, técnica de vendas, técnico de enfermagem, técnico de radiologia, por exemplo) e nos cursos superiores. É claro que estes também almejam aprovações em concursos e recrutamentos ao longo da vida, mas compreendem que isso pode vir a ser consequência futura de decisões tomadas agora. 

Tudo isso vem à tona neste momento por conta de dados recentes divulgados pela Unesco, os quais resumiremos aqui, à guisa de ampliação do nosso conhecimento sobre a atualidade (lembre que isso também é cobrado em concursos!). O 10º Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos, Putting Education to Work, revelou que existe uma gritante necessidade de se investir em habilidades para a juventude. Está comprovado que nos países em desenvolvimento como o Brasil, cerca de 200 milhões de jovens entre 15 e 24 anos "nem mesmo completaram a escola primária e precisam de caminhos alternativos para adquirir habilidades básicas para o emprego e a prosperidade". Tudo aponta, portanto, para a necessidade de mais educação na juventude - uma educação que produza resultados (prosperidade).

Não devemos nos apegar a trabalhos que não ofereçam maiores perspectivas

Todos nós precisamos trabalhar, com exceção daqueles que se considerem "sustentáveis" (são mantidos pelos pais, pelo patrimônio, pela herança, etc). Podemos até aceitar propostas de trabalho ou de emprego "paliativas", dessas que não ofereçam perspectivas de vida e de resolutividade profissional relevantes. Porém, o que não podemos é nos acomodar com essas soluções precárias.

É isso que inferimos do relatório da Unesco, ao indicar que " a população jovem do mundo é hoje maior do que jamais foi; um entre oito jovens está desempregado e mais de um quarto está preso em trabalhos que os deixam na linha da pobreza ou abaixo dela. Enquanto os efeitos da crise econômica continuam a sufocar as sociedades no mundo todo, a profunda falta de qualificação da juventude é mais nociva do que nunca".

Poucas regiões conseguiram atingir as seis metas de Educação para Todos (EPT), traçadas no ano 2000, haja vista o fato de que 250 milhões de crianças em idade escolar primária ainda "não sabem ler ou escrever, frequentando ou não a escola, e 71 milhões de adolescentes estão fora da escola secundária, perdendo a oportunidade de adquirir habilidades vitais para um emprego futuro". 

Capacitar é preciso

Hoje, nem sempre aquilo que aprendemos numa escola técnica ou curso superior será utilizado diretamente na nossa vida profissional, seja na esfera pública ou privada. Tanto é assim que não é anormal vermos médicos se tornando policiais federais, engenheiros se tornando técnicos bancários, odontólogos se transformando em analistas judiciários, e uma imensa proporção de diversidades no mundo do trabalho.  

Contudo, caso aconteça isso com você, não se desespere, pois o importante é não descuidar da formação - capacitar é sempre preciso. Irina Bokova, a diretora-geral da UNESCO, faz uma constatação emblemática que resume o quadro geral que temos:

"Estamos testemunhando uma geração jovem frustrada pela disparidade crônica entre habilidades e emprego. A melhor resposta à crise econômica e ao desemprego de jovens é assegurar a capacitação básica e relevante de que precisam para entrarem no universo do trabalho com confiança.  Muitos jovens, moças em particular, precisam ter caminhos alternativos para a educação, para que possam ganhar as habilidades necessárias para sua sobrevivência, para viver com dignidade e contribuir com suas comunidades e sociedades". 

Caminhos alternativos para enfrentar o problema

Seguem algumas das recomendações extraídas do Relatório:

- Todos os jovens precisam de capacitação de qualidade em habilidades fundamentais relevantes na educação secundária. 

- Os currículos de educação secundária devem ser equilibrados entre habilidades técnicas e vocacionais (incluindo TI) e habilidades transferíveis, tais como confiança e comunicação, que são indispensáveis ao ambiente de trabalho. 

- Estratégias de capacitação devem contemplar os desfavorecidos, principalmente mulheres jovens urbanas e pessoas pobres em zonas rurais.

- U$ 8 bilhões serão necessários para assegurar que todos os jovens tenham educação secundária nos países em desenvolvimento. Os governos, assim como doadores e o setor privado, devem ajudar a preencher a lacuna do financiamento. Por exemplo, no Brasil, que é considerado um doador novo e emergente, poderia fazer mais em prol do desenvolvimento de habilidades dos jovens em países em desenvolvimento no mundo todo, mas precisam manter o foco de suas prioridades nas necessidades dos desfavorecidos.

Por Alberto Vicente - alberto@concursosnobrasil.com.br

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