Pare de sofrer com os estudos!

O que é Estudar? Se você associa esse verbo somente a algo negativo, como o sofrimento, é hora de rever seus conceitos e encarar o estudo como algo que vai muito além de um esforço para alcançar um objetivo.

Não é raro ouvir de estudantes em geral uma opinião costumeiramente negativa acerca do significado da palavra "estudar". Não precisa ser pai ou mãe para já ter ouvido isso da boca de um filho algumas vezes na vida. Até mesmo se fizermos um breve retrospecto da nossa vida estudantil pregressa, algo irá nos levar a resgatar esse passado meio nefasto. Acredito que tendemos mesmo, desde a infância, a associar os estudos a tudo aquilo que implique esforço (sem vontade de fazê-lo), obrigação, "chatice", "canseira" ou outra conotação do mesmo nível. Acabamos perdendo a noção exata, em alguns momentos da vida, acerca do grau de encanto que o ato de estudar pode revelar, ainda que seja elevado "o preço a pagar" (sejam as horas de estudos para finalizar uma tese de doutorado, sejam os momentos "duros" de uma graduação, ou seja até mesmo o dia a dia das crianças e adolescentes naquela fase escolar cheia, paradoxalmente, cheia de descobertas...).

Com o concurseiro acontece a mesma coisa, porque o "status" de estudante prossegue sendo o mesmo. Quantas vezes você não pensou em jogar a toalha e abandonar a ideia de estudar tanto para um concurso que ainda irá ser aberto? Quantas pessoas passaram por você e lhe disseram: "cara, deixa disso, estudar demais acaba levando à loucura", "eu não nasci pra estudar".

O psicólogo Leonardo Del Puppo Luz nos lembra, de fato, que o verbo Estudar sempre foi cercado, no campo da educação popular, como algo 'pejorativo", vinculado aos castigos e aos cerceamentos de desejos mais interessantes. Nesse processo de negativação do ato de estudar, os próprios pais (nós?), tradicionalmente, temos uma parcela de culpa: "os pais sempre barganhavam como a palavra estudar, efetuando verdadeiros escambos morais e éticos quando o assunto era estudar. Sempre pergunto: como algo pode ser tornar positivo, agradável e frutífero se já é um natimorto moral?", reflete o profissional, que é criador do site "Estuda Já".

Remetendo à sua experiência enquanto concuseiro, Leonardo Luz nos contou um pouco do seu percurso rumo à descoberta de um novo sentido do verbo Estudar. Ele conta que foi motivado a estudar para o concurso do TRF por conta da aprovação de sua esposa para o mesmo órgão. Nessa época, se matriculou em um preparatório para concursos, já que seus conhecimentos jurídicos se limitavam a breves passagens da Constituição Federal, sendo claramente insuficientes para prestar quaisquer concursos. E prossegue:

"Após dois meses de estudos em um ritmo não humano, comecei a sentir a pressão e a frustração provocados pelo cansaço, um cansaço, digamos, não saudável. É o que chamamos de Esgotamento; uma vontade de nada absoluta. Algo que mesclava desestímulo, desmotivação, stress e um leve flerte com o que popularmente conhecemos como depressão.

Foi neste ponto em que comecei a pensar sobre minhas ações e posturas frente aos livros e ao estudo propriamente dito. Algo tinha mudado, mas essa mudança trouxe reflexos nefastos para minha saúde mental e física.  Percebi que alguma coisa estava funcionado de modo que não privilegiava minha capacidade de pensar, analisar, estudar, sentir e agir. A ideia do artigo foi tomando forma nesta época. Como psicologo me senti na obrigação de fazer algo, de pensar algo e dizer algo".

Um dos seus "insights", nesse percurso, surgiu quando teve contato com uma publicação bastante conhecida na área de aconselhamento para aprovação em concursos públicos.  "Algo mudou radicalmente no meu estudo quando li o livro de um "guru" dos concursos. O livro dessa pessoa me mostrou exatamente o que eu não deveria fazer em relação às formas de estudar. [Mas percebi com o tempo que] todas as sugestões e ideias [daquele] livro, [apesar de bem intecionadas], podiam prejudicar significativamente muitos alunos que, em principio, teriam alguma chance em se 'profissionalizar' no estudo, pois é isso o que significa um concurseiro: um profissional do estudo."

 "Reformulei todas as minhas ideias, atitudes, habilidades e conhecimento no que tange a palavra ESTUDAR. Posso dizer que atribui um outro significado à palavra Estudar. Dificil dizer exatamente o quê. Fazer isso seria como tentar explicar o verbo Amor. Há explicação?"

Leonardo Luz revela que nessa época começou a desenvolver o atendimento no consultório para pessoas que gostariam de se preparar para concursos. Para a empreitada, utilizou uma metodologia própria, mas fundamentada principalmente nos estudos de Michel Foucault (filósofo francês, 1926-1984) e no legado da Análise Institucional Francesa. Assim, elaborou uma "forma de atendimento que busca pensar o estudo e suas formas de atuação".

"Como o concurseiro poderia otimizar seus estudos fazendo com que o estudo se adapte ao seu modo de ser e agir, e não ao contrário, ou seja, repensar e reconstruir subjetivamente as formas preestabelecidas e enrijecidas de estudos que moldaram nossas ações. Na minha opinião, esta é a origem/causa de tanto sofrimento entres as pessoas que se dedicam aos concursos", resume o psicólogo.

Buscando aplicar aquilo que refletia aos seus estudos, enquanto concurseiro, em novembro de 2004 Luz conseguiu uma aprovação para o concurso do MPU, sendo nomeado no ano seguinte para a Procuradoria Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ). "Posso dizer que este foi meu primeiro concurso. Havia feito outras provas antes, mas sempre com plena consciência de que o meu preparo intelectual estava amadurecendo, sendo assim não estava me sentindo 'afiado' para as provas (...). Pensar deste modo pode evitar, acredito, cobranças subjetivas muito rigorosas e efetivamente desmotivadoras", revela.

Após algum tempo, Leonardo foi nomeado também para o TRT da 17ª Região, bem como para a PRF. "Cheguei a fazer o curso de formação no RJ [para a PRF], mas por ironia do destino fui inabilitado no exame psicotécnico da PRF. Realmente, fazer uma avaliação profissional de um teste psicotécnico durante sua aplicação foi uma das coias mais irracionais que já fiz. Serviu como um aprendizado", testemunha. 

Em 2006, conta que prestou concursos para o AFT, mas não obteve um bom resultado. "Em 2007, bastante empolgado com minha atribuições no MPT, resolvi prestar concurso para o Mestrado de Psicologia Institucional na Universidade Federal do Espírito Santo. Com uma das maiores alegrias que senti ate hoje, fui aprovado. Em 2010 solicitei remoção do MPT para o MPF onde estou lotado até hoje".

Concluindo este breve artigo (misto de editorial, entrevista e depoimento), perguntei ao psicólogo se ele acredita que essa "reformulação nefasta" da educação, hoje muito focada nas questões do mundo do trabalho (estudar para entrar na iniciativa pública ou privada, fazer vestibular, cursos técnicos, etc) tende a impor limitações ao sentido mais amplo que se possa ter sobre o ato de estudar (para formar seres humanos melhores, por exemplo).

Eis a sua resposta e o nosso desfecho:

"Efetivamente sim.

Observe: peça a alguém para falar livremente sobre o verbo "estudar". Com raríssimas exceções, as características e adjetivos ligados ao verbo serão de fato pejorativos e atrelados a alguma forma de sofrimento, principalmente psíquico. Sempre gosto de dizer que o verbo Estudar é negativado em si mesmo. Isso é uma limitação clara. O ato de estudar está intimamente ligado ao sofrimento. É comum ouvir de alunos que para estudar é preciso "abrir mão de algo", isto é, deixo de lado algo que gosto muito para ter que efetivamente estudar. Não há como isso dar certo!!! A gente já começa a estudar de maneira que os resultados que esperamos do estudo irão triplicar o tempo de aprendizado.

Infelizmente isso não é algo que possamos mudar de uma hora para outra. Exige mudança de formas de pensar e agir. Todavia, acredito que em algum momento isso será ressignificado. Este é o trabalho que me propus na Clínica, qual seja: como dar início a uma reconfiguração da forma de sentir o verbo Estudar".

Redação e edição: Alberto Vicente ([email protected]).

Agradecimentos a Leonardo Del Puppo Luz

 

 

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