Como lidar com a reprovação e a depressão

Há momentos em que é preciso mesmo reagir, para não sermos tragados pelo monstro da tristeza.

No artigo em que considerávamos a necessidade de se buscar forças após uma reprovação (veja íntegra aqui), um leitor comentou o seguinte:

Também estou passando por esse momento muito ruim e estou me culpando demais. E cada dia que passa eu choro mais e mais, e a vontade de desanimar aumenta a cada dia. E, pelo fato de eu ainda ter 15 anos, sendo muito novo, não estou conseguindo entender que isso faz parte [da vida], que eu tenho que levantar a cabeça e dar a volta por cima.

Eu sou muito fraco emocionalmente e por isso estou ficando mais depressivo a cada dia que passa. Perdi a vontade de fazer tudo que eu fazia antes, de sair de casa; acho um pesadelo o relógio despertar de manha e eu saber que vou ter que ver meus amigos na minha frente e eu preso numa série anterior.

Sozinho e sem amigos na minha sala para eu me sentir à vontade e tentar me acostumar, estou com muito medo de repetir de novo, não esse ano, mas lá na frente . O que eu faço? Alguem me dê conselhos, por favor!

O leitor não devia se preocupar tanto com o atraso de série, mas sim, com a depressão e a fraqueza emocional. Perder de ano letivo, por si mesmo, não é o fim do mundo para quem tem 15 anos de idade, ainda que possa doer bastante.  Agora, perder o equilíbrio emocional diante de uma situação dessas, pode ser sim motivo suficiente para, em primeiro lugar, ele buscar aconselhamento profissional e espiritual.

Esse jovem não deu detalhes sobre como está a sua relação com os pais (ou mesmo se vive com os pais), mas acredito que a maneira como as coisas estão sendo encaradas pelos pais pode ser um passo decisivo para o enfrentamento desse princípio de depressão. Dois dos meus filhos já foram reprovados na escola (um por duas vezes, a outra, até o momento, uma vez) e, embora poucos pais realmente saibam o que se passa no interior completo de um adolescente ou criança, jamais vi quaisquer indícios de que eles tenham entrado em depressão por não conseguirem passar do 7º para o 8º ano, ou do 8º para o 9º, respectivamente.

Complementando o depoimento inicial, o jovem Danilo Fernando Benevides nos contou uma história parecida:

"Olá... Tenho o mesmo problema desse jovem: depressão mediante a pressão em passar na escola e em uma boa faculdade. Isso começou no 2º Semestre do 2º ano do Ensino médio, quando eu tinha 15 anos.

Nessa época eu tinha uma ansiedade simples antes de fazer um tipo de prova chamado de "Prova Geral Avançada - PGA", que era para avaliar o conteúdo de cada Bimestre. Essa ansiedade tirava minha noite de sono um dia antes de cada uma dessas provas.

Quando passei para o 3º ano do ensino médio, o problema se agravou: minha ansiedade deu lugar a uma depressão agonizante. Minha escola decidiu aumentar o horário das aulas (agora saio da escola às 4h da tarde e entro as 7h10min da manhã).

E não somente isso... Minha escola também decidiu que os professores não seriam os que farão minha prova, e sim os professores de outra escola. Isso me deixou com muito mais medo de fazer as provas. Detalhe: mesmo com todos falando que a prova é mais fácil, sou o único na escola que não aceita tal afirmação e insisto em ficar ansioso e depressivo.

Em toda minha vida, meus pais me ensinaram que eu tenho de ir para a escola e tirar boas notas. Isso nunca tirou meu sono, nem me preocupou, apenas me deu um objetivo na escola. Porém, como estou no 3º ano, tenho medo, pois mesmo revisando a matéria, ainda tenho receio por ter pouco tempo para estudar (pois chego em casa às 16h30min e durmo as 20h... E em certos dias vou para a igreja, o que subtrai ainda mais meu tempo de estudo.

Eu tenho uma boa relação com meus pais... Converso com eles abertamente sobre essas coisas que acabei de falar, então não acho que esse possa ser o problema. Qual pode ser o meu problema? Alguém pode me ajudar? Ja cogitei até a morte!! Apesar da ideia de morrer não surtir efeito em mim, tenho medo de algo pior acontecer...

Passemos a seguir a relativizar as duas situações e chegar a um desfecho único.

Para ambos os jovens, o aconselhamento é o mesmo (não estou dizendo que é o melhor, nem o mais profissional): não se mate por isso! Resista à cobrança! Se sente que não está em condições de "dar conta do recado", é preciso encontrar um jeito de relaxar, tirar o peso das costas, recomeçar do ponto onde começou o conflito. Há neste momento jovens na sua idade que estão se cobrando cada vez menos em relação aos estudos... Isto pode não lhe servir de consolo, mas é fato.

Quando a cobrança dos pais se torna insuportável, ao ponto deles minimizarem todos os esforços ou "conquistas" do filho, as chances desse filho entrar em conflito podem ser ampliadas significativamente. Portanto, acredito que esse jovem deva primeiramente conversar abertamente com os pais a respeito do que sente sobre as reprovações na escola, enfatizando que não se sente em condições de "trabalhar sob pressão".  Quem sabe, juntos, eles resolvam procurar uma ajuda profissional, caso tenha condições financeiras para isso? Quem sabe até a igreja pode interferir e ajudar, dependendo do estilo doutrinário que ela professe? (isto se não for mais uma daquelas congregações de crentes que só ensinam vitórias, determinações, etc, e diz que fracasso é coisa do diabo!).

Um outro aspecto extraído dessas duas situações é a preocupação exacerbada que parte da juventude está demonstrando ter com a repetência ou o fracasso escolar - como se fracasso escolar fosse sinônimo de fracasso na vida, nos concursos, nos negócios, no amor, entre outros. Essa lógica não é tão verdadeira assim, ainda que exista toda uma "lenda urbana" tentando fazer parecer que é...

Diante da situação educacional de um país como o Brasil, é de se admirar que alguém dê tamanha importância assim aos estudos. Digo isto por sentir que a coisa hoje está mais grave do que se pensa: parece que a juventude não sente tanta tristeza assim por perder um ano ou dois na escola. Afinal, não é verdade que nas escolas todo mundo ainda continua tornando populares os menos dotados intelectualmente, e impopulares os chamados "CDFs"?  Não quero desmerecer o que esses jovens estão sentindo, respeito as suas individualidades, mas apenas torço para que ele tome consciência de que perder um ano ou dois não é nada de anormal. Não se martirize por isso, ainda que doa!

Os amigos vêm e vão, e existe a possibilidade desse jovem construir novas amizades na classe em que ele se encontra, caso se atrase um pouco. Basta se abrir um pouco mais para o mundo, encarar a derrota, não deixar abater por ter tomado um grande empurrão para trás, e seguir em frente.  Todos os dias, milhares de pessoas ficam para trás em algum setor das suas vidas. Se cada uma delas decidisse desistir das suas vidas, por causa de uma situação adversa, este mundo estaria perdido. Mas ele ainda não está!

Com 15 anos de idade, dá para mudar muita coisa do mundo, ainda que seja apenas o seu mundo pessoal. Hoje, por exemplo, há jovens de 15 anos se tornando empreendedores, mesmo sem ter concluído o nível médio, mesmo sem nunca ter pensado em participar de um concurso público.

Para encerrar, espero que esses jovens não cedam à pressão das circunstâncias adversas e comecem a tomar o controle das suas vidas (não me refiro a se tornarem rebeldes, entenda-se), pois não há nada perdido. Eles podem nem imaginar, mas é possível que muitos estejam neste momento torcendo contra e querendo vê-los cada vez mais para trás. 

Nessa idade, tudo está começando a florescer: novos concursos, novos vestibulares, novas oportunidades de trabalho, um namoro, empreendimentos, a busca de uma religião, etc. Que eles saibam aproveitar com dignidade essas oportunidades e que não se isolem, pois, como diz o poeta, "ninguém é uma ilha".

alberto@concursosnobrasil.com.br

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