O encontro marcado: da frustração à vitória

Primeira parte do depoimento de Francisco Leite sobre sua trajetória nos concursos públicos a partir da década de 70.

No futuro, certamente você terá um encontro marcado com o seu presente e o seu passado, pois estes são decisivos para o traçado daquele. Eu acredito nisso piamente, porque sou fruto das lutas, embates, derrotas e vitórias que tive (e ainda tenho), ao longo da vida - aliás, algo típico de todo ser humano. Outro dia, um aluno X da federal paraibana, aparentando ser de família humilde, procurou-me para dizer que estava cansado, frustrado, porque já tinha feito alguns concursos, mas sem êxitos. Ponderei que concurso público é apenas uma dimensão da nossa vida, que não pode ser resumida a ele. Considerei também que os concursos hoje são significativamente mais disputados do que há algumas décadas passadas, e que tanto podem gerar possibilidades pouco concretas, quanto possibilidades efetivamente concretas. Enquanto, talvez, lamentamos acerca da falta de êxito nos concursos, a vida vai nos oferecendo diversas outras possibilidades e estas também precisarão ser vividas, independente do fracasso ou do sucesso aparente. Como forma de lhe fornecer ânimo, passei a contar-lhe um pouco da minha experiência de concurseiro.

A primeira frustração que tive foi aos 16 anos de idade, na década de 70 do século passado, quando o Banco do Brasil abriu sua filial na cidadezinha de Uiraúna - Paraíba e precisava de estagiários. Eu estudava, parece-me, a 5ª série ginasial e me considerava um bom aluno: minhas notas, nunca abaixo de 9,5, me colocavam na lista dos melhores alunos do saudoso Colégio Estadual da cidade.

Uiraúna estava em reboliço, afinal era o Banco do Brasil que vinha ali se instalar. O processo seletivo seria uma entrevista. Fui defenestrado mesmo antes de me inscrever, pois que uma decisão de última hora só permitiu inscrição àqueles que tivessem até quinze anos de idade. O placar estampado na porta do Banco do Brasil, em letras garrafais, me fez chorar. Tomei ali o meu primeiro “um a zero” para o time da frustação!

 A segunda frustração veio no começo da década de 80 e tinha o nome de “IBGE”, mais precisamente, tinha o sobrenome “cargo de recenseador”, vivendo agora na cidade paraibana de Sousa. Nessa feita, fui aprovado, ou seja, empatei o jogo no primeiro tempo! Entretanto, no segundo tempo, tive que abandonar o cargo, pois, recém-chegado nessa cidade, sem eira e sem beira nas relações sociais, me designaram para atuar na zona rural. Isso fatalmente me impediu de estudar à noite, e estudar para mim era a grande prioridade. Conclusão: de virada, a frustração me venceu por 2 a 0.

O concurso da Caixa Econômica Federal, por sua vez, foi a culpada por sentir a minha terceira frustração – e quão dolorosa foi dessa vez! Tinha 20 anos de idade e passei 18 praticamente vivendo na zona rural. Saí, eufórico, vestido em uma camisa branca de mangas compridas (minha primeira camisa “bacana”) de Sousa para Campina Grande, cidade que seria o local de realização da primeira etapa do concurso. Fiz uma boa prova, salvo em conhecimentos bancários, posto que naquela época e lugar, para mim tudo era mesmo inacessível e, no máximo, tive acesso a algum material sobre técnicas bancárias, nada mais. Aconteceu, enfim, que na listagem dos aprovados não constou o meu nome. Três a zero para a frustração!

Mas eis que, cerca de um ano depois, recebi telegrama da Caixa me convocando em segunda chamada para a prova de datilografia, relativa ao mesmo concurso que julguei perdido, por não ter sido chamado na primeira leva. Que alegria senti!

Ocorre que eu fizera um curso de datilografia no ano de 1977, na Escola Lica Claudino, mantida pela Paróquia de Uiraúna e decerto que de 1977 para 1982 os meus conhecimentos sobre essa técnica estavam um pouco defasados. Então, onde e como treinar? Máquina de datilografia na cidade de Sousa naquela década (coitada da geração X!?) não era como o smartphone de agora, que até criança quase que já nasce usando. Poucos possuíam aquele equipamento de escrever, considerado hi-tech na época. Estudava à noite o segundo ano científico no novíssimo e imponente Colégio Polivalente de Sousa, dotado de laboratórios de química, física e numa sala eu vi novíssimas máquinas de datilografia Olivetti, lindas!

O Diretor do Polivalente, contudo, não me permitiu treinar nos sábados e domingos nas desejadas máquinas, por questão de segurança! Nos demais dias eu trabalhava na conhecida farmácia de João Bode, em Sousa, fazendo jus a um oitavo de salário mínimo, e já considerando aquilo um “empregão” – eu era privilegiado! Sem treinamento algum, mas dada a afoiteza do menino, vesti novamente minha camisa branca de tergal e em um dia de sábado chuvoso, estive novamente em Campina Grande em uma sala do Colégio Alfredo Dantas, equipada de máquinas iguaizinhas às do Polivalente. Reprovado na prova de datilografia, o placar já me estampava desfavoravelmente: 4 x 0!

Nessa mesma época me inscrevera para um concurso na Rede Ferroviária Federal, órgão, na época, marcado pelo nepotismo mais tacanho que já vi existir. Após todas as etapas do concurso, inclusive a necessária entrevista, fiquei em segundo lugar, decerto porque não entendia bulhufas de Previdência Social, tema central da aludida entrevista. Resultado: 5 X 0 foi o placar.

Veja a sequência desta história no segundo post aqui.

Contribuição do Professor Francisco Leite. Edição: Alberto Vicente

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