Em português, o preconceito ainda é regra

Basta cometermos uma "falha" na língua falada ou escrita para determinadas pessoas se acharem melhores dos que as outras e despejarem seus preconceitos mais recônditos.

"O preconceito linguístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-mundi não é o mundo... Também a gramática não é a língua". Marcos Bagno (O preconceito linguístico: o que é, como se faz?)

Para fazer um artigo brevíssimo sobre a questão do preconceito linguístico, sou prazerosamente obrigado epigrafar o escrito com esta afirmação de Bagno (1999). Fala-se muito hoje que as pessoas precisam cada vez mais se desvencilhar dos seus preconceitos. Mas é facilmente perceptível que alguns preconceitos insistem em não se acabar, entre eles o que paira sobre tudo aquilo que nos remeta à língua, seja a que falamos, seja a que escrevemos, mesmo habitando em um país multicultural. 

Não precisei ir muito longe para constatar novamente esta verdade: sempre que alguém que se acredite satisfatoriamente "treinado" nos fundamentos da norma culta (aquela que a gramática ensina a falar/escrever) "descobre" um deslize linguístico do próximo. Parece que, com isso, vai - se embora um pouco da boa convivência para que seja dado lugar a um misto de preconceito ("essa pessoa não sabe falar/escrever") e ar de superioridade ("precisa voltar pra escola").

Esse sentimento nacional é nítido ao ler apenas alguns comentários veementes de concurseiros leitores do nosso site, os quais acreditam dominar bastante a língua portuguesa. Ainda não vi gramático algum depreciar os usuários da língua, pois todos parecem tratar os "desvios" do padrão com muita diplomacia - comportamento este que, infelizmente, não se repete em determinados tipos de brasileiros. Estes demonstram sempre uma certa intolerância linguística.

Uma das frases que mais li ultimamente foi: "com esse seu português ruim, já sei que você não passa em concurso algum". Não se preocupe, pois minha intenção aqui não é entrar na complexíssima relação entre o que sabemos efetivamente sobre o padrão culto da língua e os indicadores da educação no Brasil (os nossos hábitos de leitura, os rendimentos em disciplinas fundamentais da educação básica, as cotas, a evasão, as redações para Enem e vestibulares, ou o que mais se poderia pensar nesse nível).  Quero - mesmo que superficialmente - apenas tratar de reafirmar algumas ideias que defendo, para depois ouvir as suas, leitor, caso queira comentar. (Se o leitor encontrar algum "erro/desvio" em relação à norma culta neste texto, fique à vontade para apontar, sem ressalvas. Somos imperfeitos, a língua também é. Somos dinâmicos, a língua também é).

1. Pare de querer ser o suprassumo da gramática!

Todo brasileiro de escolaridade, digamos, "razoável" (sei que este termo é de uma imprecisão medonha, mas...) se acha "o tal" em gramática normativa. Isso se deve menos pelo conhecimento que tem sobre gramática e mais por uma questão de acreditar que já domina a língua pátria o bastante para dar "lições de moral" linguística nos outros. Apontar o dedo no suposto "erro" (ortográfico, sintático, semântico, etc.) do outro é muito fácil, mas engolir quando alguém aponta o próprio "erro" é sempre mais cruel e complicado. Tem gente que prefere argumentar a favor de ter optado por determinada forma de escrever ou falar, simplesmente, porque não aceita que o que tenha cometido seja considerado um "desvio" no padrão dito culto da língua - esse que todos os veículos de comunicação (do jornal estudantil à academia) hoje dão como o normal.

2. Hoje você "corrige" o "desvio" do outro, amanhã será "corrigido"

Isto também é fato incontestável: dificilmente o corretor de hoje não acaba se tornado o corrigido de amanhã. Se existir uma forma, talvez mais humana, de acabar com a intolerância nessa seara é simplesmente buscarmos outras formas de convivência perante as diferenças linguísticas. Isso vai desde o abandono do tratamento agressivo que algumas pessoas dão às outras diante dos tais "erros de português", a até a mudança de mentalidade nos mais diferenciados níveis de relacionamento humano. Assim, antes de taxar de "burra" uma pessoa que não conjuga o verbo "conseguir" dentro do padrão aceito pela gramática normativa, por que, antes de atirar todas as pedras, não tentamos nos aliar a ela e explicar o que acontece com a flexão desse verbo, em algumas situações que requerem de nós uma linguagem menos "relaxada", mais formal?

Ademais, por que a gente não entende de uma vez que não existe "erro" na fala de um matuto e sim a necessidade desse brasileiro ser apresentado ao padrão linguístico urbano mais aceito socialmente (mutável, por excelência)? E por que a gente não para de excomungar aquelas pessoas que, mesmo tendo recebido uma educação escolar tradicional, não têm utilizado satisfatoriamente as formas consagradas e consideradas como "exemplos de boa escrita"? Não seria mais humano/ tolerável/prazeroso ajudá-las a abandonar determinados "vícios" de fala e de escrita que não são compatíveis com aquilo que na língua é atualmente considerado aceitável, para determinados contextos sociais (e mesmo assim a explicando que, dependendo da circunstância, podem ser utilizadas outras variações linguísticas)? Tudo isso sem taxações! Tudo isso sem acusar as pessoas de "burras"! Tudo isso sem dizer que a culpa do sistema educacional brasileiro! 

3.  Chega de preconceito linguístico!

Com tudo isso, não estou querendo dizer que devamos ser anarquistas naquilo que se refira ao padrão culto (aceitável) da nossa língua. Muito pelo contrário. Se você quer passar em concursos públicos, vestibulares, provas de seleção para empregos privados, enfim, se você quer fazer carreira em quase todos os segmentos profissionais da atualidade, terá que conhecer e prosseguir em conhecer a língua portuguesa aceita socialmente, essa que a gente luta para aprender na escola, ao longo de quase toda uma vida.

Mas dominar o padrão culto/a norma/o padrão formal não significa que necessariamente tenhamos que nos tornar ditadores impiedosos, julgando e debochando das pessoas que, supostamente, não fazem aquilo que é considerado aceitável, "normal". Sobre a norma, vale lembrar do que Carlos Alberto Faraco afirma no prefácio contido na Gramática de Bolso do Português Brasileiro (Marcos Bagno, 2013):

"(...) essa norma tem sido fartamente utilizada para grudar rótulos negativos nas pessoas e para submetê-las a atos de exclusão, seja no sistema escolar, seja no mundo do trabalho. Seu insucesso prático resultou também no desenvolvimento de uma cultura do erro que pauta negativamente nossas relações socioculturais com a língua portuguesa" (BAGNO, 2013, p.10, o grifo é nosso)".

Pois bem, queridos concurseiros, vamos atentar para esse tipo de questão! Até porque - e o autor citado também enfatiza isto - muito do que hoje é considerado "anormal", "aberração linguística", "assassinato da gramática" ou "coisa de gente burra" pode acabar - daqui a algumas décadas, ou em menos tempo - se tornando o padrão aceitável. Como pode também acontecer o processo inverso! Não precisamos imergir muito na história da língua para acreditar que tudo isso é possível. A língua é um organismo vivo, não está preso ao cercado da gramática, embora esta tenha a sua utilidade e isso é inegável.

Assim sendo, antes de despejar gramática em cima dos outros, ou simular a sua alta capacidade de compreensão dos fatos da língua, lembre-se de que "a gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda"*.    

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* A frase é do escritor Luis Fernando Veríssimo, extraída da sua crônica "O gigolô das palavras"

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