Monique Muniz: oito anos de concursos e a certeza do caminho a seguir

Confira a nossa entrevista com a concurseira Monique Muniz, autora dos livros "Virei Concurseiro, e agora?" e "Como passei em um Concurso estudando 2 Meses".

Monique Muniz dispensa apresentações, porque a sua própria história explica quem ela é.  À guisa de introdução desta entrevista ao Concursos no Brasil, lembremos somente que a concurseira carioca, formada em Administração de Empresas, é a criadora do blog "Concurseira.Net", no qual compartilha as suas experiências na área de preparação para concursos, atuando como consultoria para concursandos.

Recentemente, Monique publicou dois livros essenciais, principalmente para concurseiros iniciantes: "Virei Concurseiro, e agora!?" e "Como passei em um Concurso estudando 2 Meses". Na entrevista que se segue, ela fala das duas publicações e divide conosco a sua visão de mundo sobre a vida concurseira.

Quais os principais assuntos abordados nesses seus dois primeiros livros?

Escrevi esses dois livros depois de ter sido aprovada. Na verdade, coloquei neles algo como se fosse “um mapa” que eu gostaria de ter se eu estivesse começando agora a estudar para concursos. Eu, durante muito tempo andei “em círculos” cometendo os mesmos erros tanto na minha preparação quanto na hora de fazer a prova. Talvez se eu mesma tivesse tido algo do tipo, talvez teria encurtado o meu caminho até a aprovação.

O primeiro livro “Virei Concurseiro, e Agora?!” fala para aqueles que acabaram de se interessar pelo mundo dos concursos. Tais pessoas geralmente não têm a mínima ideia sobre como começar, simplesmente viram um anúncio na banca de jornal ou na internet sobre um "salário de 5 mil reais com apenas o ensino médio" e decidem que querem atingir essa meta para as suas vidas.

Não nego que se trata de uma atmosfera que fascina, mas essas pessoas ainda não têm a exata consciência de qual terreno estão começando a pisar. Então, meu livro mostra, entre outras coisas, que a questão não é simplesmente comprar uma apostila na banca de jornal, acessar os "conteúdos" da internet (muitas vezes, de qualidade duvidosa), ler (nem digo estudar) e ir fazer a prova. Prestar concurso envolve muito mais do que isso.

Já no livro “Como Passei em um Concurso estudando 2 Meses” procurei basicamente traçar meu "diário de bordo", ou seja, é um resumo diário da minha trajetória de estudos, que resultou na aprovação para a Seplag - RJ. Em um determinado momento, eu parei e comecei a monitorar os meus próprios passos e as "técnicas" que eu usava. Comecei então a descrever toda a minha metodologia e corrigi-las em diversos aspectos pontuais. 

Antes dessas correções eu ficava sempre fora da classificação por um ou dois pontos. Depois que corrigi, e comecei a praticar, passei sobrando pontos, tanto para a Seplag quanto para o RioPrevidência.

A carreira pública sempre foi a sua meta ou em algum momento da vida, pensou em trilhar outros caminhos (a iniciativa privada, por exemplo)?

Quando estava na faculdade, pensei em ter algo meu sim, mas era dentro do campo da Consultoria. Hoje, vejo que também atingi esse objetivo, pois desempenho atividades de consultoria para candidatos em concursos públicos. O fato é que sempre pensei na carreira pública, principalmente pela estabilidade que ela proporciona.

Além dos seus estudos para concursos, da administração do site (por sinal, muito bacana) e do desempenho do cargo atual, há alguma outra atividade a que vem se dedicando atualmente (pós-graduação, ensino, empresa, etc)?

No momento, eu tenho um projeto de Consultoria de Concursos, como lembrei antes. Posso dizer que é um coaching, no qual oriento, organizo e otimizo o tempo de estudos dos candidatos, por meio de uma análise do perfil e da rotina deles. É algo que me toma um bom tempo, pois é um acompanhamento personalizado, uma espécie de “treinador” para concursos. Além disso, estou com planos de iniciar uma pós graduação em Gestão Pública.

Ao longo, digamos, da sua “trajetória de reprovações” em algum momento você pensou em desistir ou não mais encontrou o apoio de que necessitava para continuar tentando?

Apoio eu sempre encontrei no meu esposo, mas muitos amigos não entendiam que o sacrifício que eu estava fazendo naquele momento era temporário. Deixei de ir a festas e reuniões porque tinha que estudar. Hoje posso curtir com tranquilidade a minha vida e os meus verdadeiros amigos.

Pensei em desistir sim quando passei em 2005 (detalhes aqui) e não consegui assumir. Fiquei quase 1 ano para me recuperar, mas decidi voltar a estudar.

Se existisse uma “combinação ideal” que levasse à aprovação, qual seria? (tempo de estudo + disciplina? bagagem intelectual + preparo prévio + equilíbrio emocional? disciplina + Investimento + visão de longo prazo?) Qual você sugeriria?

Alberto, acho que não existe uma combinação ideal. Tenho contato todos os dias com milhares de concurseiros de todo o país e percebo que cada um deles tem um jeito diferente de estudar. Na minha opinião, todos esses elementos que você citou são necessários, mas não trabalham sozinhos. É realmente um conjunto de fatores que te leva à aprovação. 

Uma parcela da opinião pública de certa forma vê com certa desconfiança ou mesmo desesperança toda essa corrida por um espaço na administração pública, via concurso público. Segundo alguns, essa às vezes obstinada busca pelos cargos da máquina pública (que obviamente não contemplará a todos) traz como consequência uma determinada perda de talentos. Ou seja, o Brasil perde, por exemplo, gente que poderia contribuir para o seu desenvolvimento, por meio do empreendendorismo.

Como você, enquanto também funcionária pública, encara essa questão?

Acho que como qualquer carreira, nem todos irão alcançar o sucesso desejado. Quando se termina uma faculdade, o primeiro sonho do formado é o de que ele vai virar em pouco tempo um profissional de sucesso, seja ele médico, engenheiro, advogado, administrador. Todos estão buscando o seu lugar ao sol, isso é verdade, mas nem todos alcançam, tendo que no meio do caminho ajustar os seus planos.

O perfil do candidato que se coloca hoje a disposição de fazer provas para concursos é o da pessoa que busca algo estável, real, concreto, e que na maioria das vezes já teve uma experiência na iniciativa privada que não foi bem sucedida. Não vejo uma total perda de talentos, porque hoje a Administração Pública está muito diferente do perfil que tinha há anos atrás. Existe um crescente movimento que tem trazido a administração gerencial para dentro da Administração Pública.  São planos de carreira, oportunidades de crescimento que antes não existiam, e com isso o funcionário público que anteriormente ficava a vida inteira “carimbando papel” hoje já pode almejar algum crescimento naquilo que faz.

Ter mais dinheiro ou não ter influencia na aprovação? Chegam mais rápido à carreira pública aqueles que foram mais favorecidos financeiramente?

Antigamente era muito difícil conseguir material de qualidade, bons cursos. Nos dias de hoje, com a globalização, todos tem acesso a praticamente as mesmas informações. Tudo é questão de estratégia e foco.

Dizer que são favorecidos nos melhores cargos aqueles que possuem melhor condição financeira não condiz muito bem com a realidade. Eu mesmo sou prova disso. Nasci e fui criada numa favela do Rio de Janeiro, minha mãe lavava roupa para fora e meu pai trabalhava como maçariqueiro num estaleiro. Ambos não chegaram a concluir o ensino fundamental. Minha avó é analfabeta. A vida toda minha mãe fez faxinas para sustentar os meus estudos. Aos 7 anos fiz prova para um colégio militar e passei. Virei bolsista, mas ainda sim ela continuava bancando os livros e materiais que o colégio pedia. Aos 14 anos perdi a bolsa por causa da idade e fui para um colégio público. Fiz o meu ensino médio todo lá. Quando terminei, tentei entrar numa faculdade federal mas não consegui. Decidi então ir trabalhar para pagar os meus estudos. Trabalhei como garçonete, animadora de festa infantil, babá, até começar a trabalhar numa corretora de imóveis. Ganhei uma bolsa numa faculdade particular e cursei a faculdade de Administração de Empresas.

O restante da história você já conhece...

Muitas vezes, parece que toda a estrutura de preparação hoje vigente (os cursinhos, os professores-modelo, os “dogmas” e as dicas de preparação) tende a impor uma certa “pressão” sobre aqueles que porventura não alcancem seus objetivos nessa seara (leia-se uma aprovação em concurso ou vestibular, por exemplo, e, se possível, em tempo aceitável).

Será que os padrões sobre como deve ser a melhor forma de se estudar não cerceiam as singularidades de cada candidato ou esses padrões são mesmo necessários? Como você vê essa questão?

Concordo que a melhor forma de estudo vai de cada candidato. Mas é preciso ter alguns requisitos básicos como força de vontade, disciplina e persistência. Lembro também que alguns caminhos, quando conhecidos pelos candidatos, facilitam um pouco mais o sucesso nos concursos, pois fazem com que a preparação siga sem desvios.

Como em um treino físico, cada um tem um ritmo diferente, uma vida diferente e isso deve ser respeitado sempre. Uns têm disposição (e disponibilidade) para correr. Outros somente para andar. Outros ainda para somente se arrastar. Não importa, pois a intenção é não parar.

Os padrões e essa pressão toda ocasionam sim um efeito colateral, considerando este mundo moderno, no qual nos é imposta a quase obrigação de "vencer a qualquer custo no menor tempo possível", caso contrário, não servimos, ou não nos "encaixamos" socialmente.

Se servir de consolo a quem esteja passando por situações nesse nível agora, digo que eu levei oito anos para tomar posse no meu primeiro concurso. Será que hoje isso seria aceitável? Creio que não. Mas eu sabia onde queria chegar.

Qual a sua mensagem final para os concurseiros do Brasil?

Deixo aos concurseiros de todo o país, sejam iniciantes, sejam veteranos que ainda não foram aprovados, que não desistam, se é realmente isso que desejem para as suas vidas.

Avaliem sempre as razões que levaram a tomar a decisão de enveredar por esse caminho e sigam em frente!

Às vezes, eu escuto das pessoas que estou dizendo isso porque já sou concursada. Mas isso não procede: eu posso falar, diante da minha experiência de 8 anos prestando provas para concursos, que não é fácil! Como qualquer carreira desejada, vocês irão sofrer pressão psicológica, física, emocional, financeira. Terão os seus altos e baixos. Chegarão à circunstância de ficar de fora do certame por  causa de um ponto. Mas tudo terá valido a pena depois que vocês conseguirem a primeira aprovação. Poderá até não ser aprovação no concurso dos sonhos, mas terão a certeza de que estão seguindo no caminho certo.

Edição: Alberto Vicente (alberto@concursosnobrasil.com.br)

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