Na medida do possível, seja você mesmo (Parte I)

Mesmo em meio à enxurrada de "padrões de sucesso", não se deprima caso não consiga "chegar lá" no tempo desejado.

É muito bom que se encontre tanta gente engajada em nos ajudar a passar (ganhando ou não por isso, e não somente experiência, mas também dinheiro). É muito bom conhecer pessoas que "chegaram lá" e se sentir motivado a continuar estudando até passar. É muito bom que os cursinhos cada vez mais recrutem "pessoal qualificado" para encorajar os outros, principalmente os próprios servidores públicos, considerados como os "modelos de sucesso". É muito bom ter acesso a livros e outros materiais de (auto) ajuda na hora dos estudos, afinal, que mal existe em você querer evoluir? Enfim, é muito bom se espelhar em alguém bacana para injetar em si aquele ânimo que estava faltando. Mas será que depois de feito tudo isso ainda vai sobrar tempo/espaço para sermos nós mesmos?

Quero sempre crer que sim. É por isso que sei das vantagens de se ter acesso a tudo o que foi lembrado acima, como também sei das desvantagens. Uma das mais indesejáveis é o sujeito se sentir um lixo só porque cometeu falhas durante o percurso e acabar achando que não se encaixa naquilo que os outros esperavam, naquilo que está "na crista da onda".

Penso, de fato, que todo esse "ambiente educacional" tem sempre que funcionar como nosso motivador, mas se estiver funcionando como motor de castração para a sua vida (ou para a minha), é melhor pensar (mos) duas vezes sobre o rumo a se seguir, porque algo pode estar errado. A nossa subjetividade não pode ser prejudicada por qualquer padrão, por mais benfazejo que ele seja. Se hoje a sociedade tende a vincular educação ao trabalho, não quer dizer que devamos pensar assim. Educação serve somente para o trabalho? Educação não serve para a nossa fruição cultural, ou a nossa afirmação enquanto indivíduo, ou para exercitarmos um pensar crítico sobre algo que nos estimule a tal? O amor só "serve" somente para consolidar uma relação a dois? Uma prova, por mais bem elaborada que seja, pode "provar tudo"? Tais tipos de questionamentos são apenas mínimas evidências de que o concurseiro precisa sempre ter uma visão crítica a respeito de tudo o que está acontecendo, inclusive dentro das salas de aulas dos cursinhos, inclusive nas entrelinhas dos livros de ajuda, os artigos (até este) e as apostilas, que muitas vezes estão até permeadas de uma visão simplista demais das coisas.

Recomendo a leitura de um artigo acadêmico a respeito de tudo isso que estamos tentando abordar (sob outros enfoques, claro). Chama-se  "O exercício do estudar nos cursinhos destinados aos concursos públicos", do psicólogo Leonardo Del Puppo Luz (Fractal Revista de Psicologia, v. 20 - n. 1, p. 285-304, Jan./Jun. 2008). Claro que ele não encerra o assunto, até porque está faltando a minha, a sua e as demais visões a respeito, mas ajuda a entender um pouquinho mais acerca dessa "dinâmica" salutar e ao mesmo tempo perversa dos ambientes educacionais voltados para as preparações.  

Os autores acreditam que a questão atual da empregabilidade produz, dentro desses ambientes educacionais, "uma forma-sujeito balizada e garantida por preceitos universais de gestão e de funcionamento da vida". É como se o único caminho que os sujeitos necessitassem seguir fosse o que leva à boa empregabilidade, seja ela no setor público ou privado, algo que parece se evidenciar até mesmo na relação aluno-professor.

Para Luz, essa "reformulação nefasta" da educação para o trabalho dá à própria ideia de "fracasso escolar" uma reconfiguração que vai descambar naquilo que precisa ser evitado: o aluno/candidato tende à individualização e à culpabilização. Por outras palavras, se eu não conseguir passar naquele concurso/vestibular, se eu não conseguir me enquadrar nos padrões de estudos ditados e testados é capaz de me achar um tremendo ignorante, excluído da sociedade, pois não é isso que ela espera de mim, o fracasso veio por minha própria culpa, etc, etc...

Contra essa visão das coisas que o concurseiro precisa lutar, através de suas atitudes. Precisamos a cada dia dizer não a boa parte de tudo o que simplesmente vem ferir a nossa subjetividade. Por mais que nos sejam despejados a todo instante tantos e tantos "padrões de sucesso", não podemos achar que se não "chegarmos lá" estamos perdendo tempo. A educação, mesmo a educação para o trabalho, não pode ser desperdiçada a esse ponto!

O autor chega a afirmar que hoje está em vigência uma "certa mortificação coletiva de possíveis singularidades". É como se todos os nossos possíveis métodos próprios de estudo fossem sempre inferiores ao métodos prontos, ou às receitas de preparação já testadas e "comprovadas cientificamente" (de científicas, essas receitas não têm nada). Não preciso necessariamente seguir os padrões ditados pelos que estão, de certa forma, numa posição favorável dentro da escala social de poder/dominação existente - isto foi o que o artigo me pareceu também indicar, grosso modo.

Aplicando um pouco disso à minha vida, entendo que de tudo o que está sendo repetidamente ensinado em nossos atuais ambientes educacionais, eu só devo aproveitar aquilo que me convém, sem ter necessariamente a obrigação de respeitar o preceito do "faça o que eu digo" integralmente.

Afinal de contas, de que valem todas essas receitas se não for para me encorajar a ser mais feliz comigo mesmo, se não for para me incentivar a aceitar as minhas particularidades, se não for para me levar a ter cada vez mais consciência de que "cada caso é um caso" e de que eu não preciso necessariamente "fazer religiosamente aquilo que os gurus me dizem"? Assim, meu lema final é o mesmo clichê que você já deve ter ouvido várias vezes: na medida do possível, seja sempre você mesmo.

Essa conversa ainda pode ir longe, pretendo retomar um pouco o assunto pelo menos em mais um momento, se bem que preferiria mesmo era ouvir os concurseiros...

alberto@concursosnobrasil.com.br

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