Os concursos e os nossos talentos

Você se considera um funcionário público frustrado por não poder exercer seus talentos na área em que atua? Reveja seus conceitos.

De certa forma, existe uma visão que parte de alguns setores da opinião pública que, no meu humilde entendimento, soa relativamente preconceituosa. Segundo alguns críticos, toda essa corrida por um espaço na carreira pública, via concurso público, deve ser vista com certa desconfiança ou mesmo desesperança. É um assunto recorrente, sobre o qual já me debrucei pelo menos por duas vezes aqui nos Blogs do portal Concursos no Brasil. Se lhe interessar, leia os artigos:

Ser concurseiro é desperdiçar talento? (Parte I)

Ser concurseiro é desperdiçar talento? (Parte II)

Toda essa série de reflexões surgiu aos poucos na minha vida, bem antes mesmo de ingressar no funcionalismo, em instituição de ensino. Começou nos anos 90, quando fui apresentado a um conto de Murilo Rubião, chamado “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, no qual, entre outras coisas, é contada a história de um mágico que perde os seus talentos para a magia quando ingressa no serviço público (que para ele era uma forma de morrer aos poucos, talvez de tédio). O contato com algumas das opiniões de Lobão e de outros intelectuais ou artistas, muito tempo depois, só veio a reacender periodicamente parte desses pensamentos.

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O fato que me intrigava nessa discussão toda era exatamente a noção de que, ao optarmos pela carreira pública, estaríamos “enterrando nossos talentos”, pois o serviço público mataria a nossa criatividade.

Será que é isso que acontece?

Certamente que não. O modo como determinados acontecimentos relacionados aos concursos públicos são divulgados por alguns veículos de comunicação, em parte, acaba influenciando muito na difusão de tais concepções. O magistrado federal e especialista em concursos públicos, Fabrício Bittencourt, ilustra-nos bem esse aspecto. Ele, que em 2011 escreveu O Livro do Concurso Público, lembra que, certa vez, leu “uma reportagem noticiando que o ramo dos concursos públicos movimenta mais de dez milhões de candidatos”. Fica evidente, segundo o magistrado, que esse número dito, assim, sem outra referência, assusta mesmo.

Bittencourt, no entanto, vai além e encara o "sistema concurso público" por outra perspectiva: “nós podemos ver as coisas sob outro ângulo: o da oportunidade. No Brasil é preciso fazer concurso para todo e qualquer cargo público. Esta é a regra da Constituição Federal. Exceções existem, é verdade, mas são poucas. Ou seja: dez milhões de pessoas buscam aprovações em concursos porque são milhares os concursos feitos a cada ano. Tem concurso para todos os gostos e níveis de ensino. São inúmeras as oportunidades”.

Por outro lado, pode-se também acreditar que essa supervalorização do "tino empreendendor", do qual determinadas pessoas insistem tomar partido, está mais ligada ao direcionamento que damos às nossas próprias escolhas pessoais. “O ramo dos concursos públicos é amplo e diversificado. Muitas pessoas, contudo, não enxergam na carreira pública o sucesso a que almejam. Então, suas bússolas estarão orientadas para outros horizontes, como o empreendedorismo, por exemplo. Creio que, se cada um buscar o que entende por sucesso profissional, seguindo também sua intuição e as oportunidades que o dia-a-dia descortina, nosso país estará muito bem assistido nas mais diversas áreas”, completa Fabrício.

Creio que concurseiro com visão empreendedora pode se destacar até mesmo na sua esfera de atuação. Concorda comigo o auditor fiscal da RFB, Aléx Viégas, concurseiro de longa experiência e autor do Manual de um Concurseiro - O caminho das pessoas comuns,  quem ganha, ao contratar cada vez mais pessoas competitivas e que valorizam o cargo, é a própria Aministração Pública. “Digo sempre nas minhas palestras que os brasileiros têm o privilégio constitucional de conquistar seu lugar ao sol, e que em contrapartida, devem valorizar esta conquista, trabalhando com gratidão, buscando fazer o melhor, acrescentando qualidade à nossa administração. Parece um pouco poético e pueril, mas acredito nisso mesmo, e vou mais longe, os exemplos que tenho de amigos na Receita [onde exerce seu atual cargo] confirmam esta teoria. O pessoal é muito esforçado e competente. Aprendo com eles todos os dias”.

Como vimos, finalizo dizendo que o combate às investidas que buscam minimizar (ou menosprezar) o exercício de um cargo público muitos já o fizeram - e permaneceremos fazendo. Se este país ainda aprensenta carências estruturais e administrativas em todas as áreas, o funcionalismo concursado não pode arcar com o ônus da culpa. Pelo contrário: o que temos visto últimamente são os próprios servidores, em suas mais diferentes categorias, cada vez mais lutando por seus direitos, seja nas recentes manifestações espontâneas nas ruas de diversas cidades brasileiras, seja em outras frentes de luta.

O motivo, como já sentimos a partir das opiniões apresentadas, é  bem simples: uma coisa não tem nada a ver com a outra. Nem o serviço público reprime talentos, nem o exercício de nossos talentos reprime a atuação pública. Ou seja, você pode ser um desenvolvedor dos seus sonhos estando no serviço público, na iniciativa privada, ou na iniciativa individual, do mesmo modo como não poderá desenvolvê-los estando em quaisquer dessas esferas de atuação, pois isso não depende únicamente da nossa ocupação profissional. Assim, esse discurso de que o Brasil perde gente que poderia contribuir para desenvolver a nação (e aqui tomam logo o exemplo dos magnatas norte-americanos) cada vez que uma pessoa qualificada ingressa no serviço público é uma completa “barca furada”.

Por ora, é só. Sucesso a todos.

alberto@concursosnobrasil.com.br

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