Os concursos e a vocação profissional

Você acha que tem ou não vocação para exercer o cargo pretendido no concurso em que almeja ser aprovado? Antes de responder, confira as nossas dicas.

Inclinação ou talento especial para o exercício de certa profissão ou atividade. Basicamente, esta é uma das principais definições de vocação. Testes vocacionais hoje são utilizados para determinadas finalidades, sendo a essencial delas a descoberta de qual caminho profissional trilhar ao longo da vida.

Se você nunca fez algum teste formal do tipo, certamente em algum momento de sua vida foi levado intuitivamente a fazê-lo: "cursarei medicina, enfermagem, ou sou mais voltado para as letras, a informática, a engenharia? Farei concurso para policial civil, militar, federal, ou para assistente administrativo? Tenho vocação para ser policial, escrivão, técnico administrativo, professor?"

Na seara das vocações profissionais e laborativas, parto do princípio de que seja mais fácil achar-se vocacionado para determinado curso/formação do que para determinados cargos/concursos/seleções. Isso porque existem fatores, digamos, mais "imediatistas" (pragmáticos) que fazem com que o indivíduo seja levado a prestar um concurso. Inclusive serei até repetitivo em dizer que tais fatores são esses mesmos que você já deve estar imaginando: a estabilidade, o salário fixo, o plano de carreira e relativa segurança em relação a certas intempéries da iniciativa privada e das crises econômicas.

Antes de apontar algumas dicas voltadas para a relação concurso público X vocação profissional, lembro que não irei aqui ser contra tudo o que já foi dito em relação aos concursos e à necessidade de se ter vocação profissional, muito menos pretendo fazer uma revisão sobre o tema. Porém, a partir de uma certa experiência, quero deixar aqui a minha contribuição ao assunto, lembrando que ficarei muito feliz se os leitores dessem também a sua, pois não tenho pretensão alguma de ser o dono da verdade.

  • Faça o concurso que pretende fazer, faça as suas análises, seja aprovado e depois pense na vocação.

Dois professores participaram de um mesmo concurso público, que oferecia apenas uma vaga.

O primeiro tem "fama" de dominar muito os conhecimentos da sua área, porém, em sala e nas relações interpessoais tem uma reputação, no mínimo, adversa: é fleumático, sisudo, suas aulas são pouco participativas, os alunos não se envolvem emocionalmente com assunto algum e saem falando do docente pelos corredores da escola onde já trabalha.

O segundo é justamente o contrário do primeiro (embora ambos estejam no mesmo nível de formação acadêmica), pois é considerado o docente que tem verdadeiro amor à profissão, ama o magistério e os alunos sentem isso em cada aula de que participam.

No concurso hipotético em questão, qual dos dois você acha que passou? Adianto aqui: que foi o primeiro, claro. Então, onde está a vocação nisso tudo?

Basicamente, sabemos que o tipo de exame adotado pela maioria das bancas de concurso está fundamentado na concepção de avaliação como algo de aspecto somativo/quantitativo/controlador/medidor/classificatório, que deixa pouco espaço para o aspecto qualitativo/formativo.

Então, não se admire se um dia você se deparar com uma história real bem parecida com essa, na qual nem sempre o mais teoricamente vocacionado leva o prêmio final. Outra coisa: não confunda o mérito por ter sido aprovado em um teste disputado, com o mérito oriundo da bagagem curricular. Não acredito que essas coisas andem sempre juntas.

Obviamente, é claro que, prosseguindo em sua caminhada, o segundo professor irá ter o reconhecimento esperado. Mas não é isso que está em questão aqui. A questão é que nem sempre você poderá optar pela carreira à qual supostamente sente-se vocacionado e nem por isso você, se aprovado para a tal área "não vocacionada", será um péssimo servidor público!

Murilo Rubião, um mestre da literatura fantástica brasileira, escreveu um conto ("O ex-mágico da taberna minhota")que narra a história de um mágico que, após ingressar no serviço público, perde os seus encantos. Com todo o respeito ao escritor (que irônicamente também foi servidor público!), não acredito que o serviço público tire a "magia" de ninguém

Contudo, penso que certas pessoas têm - ou adquirem - o dom de retirar qualquer "magia" do serviço público. Você pode estar neste momento se lembrando de algum funcionário público que lhe tratou mal em algum momento da sua vida: seja um político a quem vocề deu a mão e acabou lhe virando as costas, seja um servidor de algum DETRAN da vida, seja aquele enfermeiro ou médico de determinado hospital ou posto de saúde que tenha causado uma péssima impressão sobre o órgão público como um todo...

Jamais me imaginei sendo um servidor público administrativo, um burocrata. Nunca fiz teste vocacional para isso, mas nem por isso me considero um servidor infeliz, desestimulado, desencantado e ineficiente. Vou mais além: isso para mim não é nem justificativa para que trate o público com insensatez.

Muito pelo contrário: é lidando com a diferença que o ser humano muitas vezes tem a oportunidade de demonstrar que é, de fato, um ser humano. Agora, se o cargo que você exerce não lhe satisfaz de fato, tenha a dignidade de reconhecer isso e peça exoneração, se possível for (caso não seja o seu principal meio de vida).

No entanto, enquanto não se demite, dê o melhor de si. Conheço muita gente que jamais achou que tinha vocação para determinada função pública inusitada. No entanto, após ingressar, vem há anos atuando com genuíno amor.

  • Haverá situações em que você precisará correr menos riscos. Então faça isso.

Imagine agora esta outra situação: você está desempregado, é chefe de família, está vivendo de trabalhos temporários e, como tem ensino médio, pretende prestar um concurso no qual avalia que tem reais chances de passar. Nada mais justo, você está sendo realista, independente desse concurso ser atrativo, financeiramente, ou não.

Nesse tipo de situação, certamente os seus alvos são os concursos cuja exigência de escolaridade não seja específica e que cobre apenas um dos três níveis de ensino. Exemplos: concursos para Agente Comunitário de Saúde, Guarda Municipal, Agente de Serviços Gerais, Técnico Administrativo e tantos outros cargos. Pergunto: em algum momento você se considerou vocacionado para ocupar algum desses cargos?

Acredito que não. Quando alguém se encontra numa situação desse tipo e mesmo assim tem interesse pelos estudos e por concursos, é evidente que ela perdeu pelo menos uns 70% da capacidade de correr riscos alçando voos muito maiores. É melhor tentar acertar o alvo de uma forma mais próxima da realidade.

Mas não há nada de errado em ser assim. Concurseiro tem o direito de correr riscos ou não, aliás, isso faz parte do processo. Se assim se sentir, o faça!

  • Se quer ser servidor público, considere a essência do ofício

Como faz questão de enfatizar o blog Servidor Público Federal, "a função de Estado é viver para servir ao país. O verdadeiro nome do servidor público é 'servidor do público':  aquele que recebe dos impostos do público para prestar bons serviços a este mesmo público".

Concordo plenamente com esta afirmação! Portanto, sou absolutamente favorável a que você tenha pelo menos uma vocação antes de entrar no serviço público: que goste de lidar com gente. Principalmente quando essa "gente" for seus compatriotas, ou seja, cidadãos como você!

Como enfermeiro ou médico, como poderei ser indelicado com um paciente, se sempre detestei ir ao hospital público justamente por temer ser mal tratado? Como secretário escolar, como poderei tratar um pai ou mãe com indiferença se também sou pai e sei que todos custeamos os salários dessa gente? Como ocupante de cargo eletivo (logo, também um SERVIDOR PÚBLICO), como poderei passar quatro anos de mandato apenas complementando minha conta bancária e não apresentando proposta relevante alguma?

São perguntas como essas que devem sempre nos levar a refletir sobre o nosso papel no serviço público...

Por Alberto Vicente

Compartilhe

Comentários

Mais Guia do Concurseiro