Ser concurseiro é desperdiçar talento? (Parte I)

Não se esqueça de que, para ser concurseiro, é preciso também ter um perfil de empreendedor.

Os prós e os contras do assunto "concurso público" ainda movimentarão muitas discussões em todos os ambientes. Até mesmo aqui no Dicas trouxemos à tona um pouco desse debate, ao lembrar das opiniões de Lobão (artigo que, incrivelmente, quase ninguém se atreveu a comentar!). Quero trazer novamente essa temática a partir da leitura das opiniões do administrador Leandro Vieira (portal "Administradores"), a respeito dos concursos e dos concurseiros do Brasil.

Vieira escreveu recentemente dois artigos que levaram os leitores a refletir sobre as opções pessoais que frequentemente fazemos por prestar determinados concursos (principalmente aqueles de destaque nacional) e também nos levam a fazer um autocrítica sobre se é esse mesmo o rumo que queremos dar a nossas vidas profissionais.  São os artigos  "O Ônus da Cultura do Funcionalismo Público" e  "Os concurseiros e o desperdício de talentos". Não vou resenhar tudo o que o autor disse a respeito do universo dos concursos, do funcionalismo, do crescimento econômico do país e dos concurseiros, mas me limitarei a destacar alguns aspectos levantados nos artigos, sem pretensão alguma de derrubar suas teses, mas sim acrescentar outras tantas.

Apostilas com conteúdos específicos para todos os concursos públicos:

Primeiro, ele diz que é preocupante a "corrida em todo o Brasil por vagas no setor público cujo trabalho em nada acrescenta ao crescimento econômico do país". Reforçando isso, ele lembra um dado interessante da Veja: 12 milhões de pessoas atualmente pensam em prestar algum concurso público quando já se sabe - logicamente - que o setor não vai comportar a imensa maioria desse total.

Não vejo essa corrida toda como preocupante, desde que existam oportunidades sendo oferecidas no serviço público e desde que cada concurseiro continue com ciência de que o guarda-chuvas não vai mesmo proteger a todos. Se há editais sendo periodicamente sendo publicados é porque existe uma necessidade frequente de pessoal, embora seja sempre uma oferta muito aquém da procura.

Ter 12 milhões de pessoas interessadas em disputar por cerca de 100 mil vagas no Brasil nos próximos anos não significa que o país tem 12 milhões de pessoas "mortas para a vida", "mortas" para o empreendendorismo, que só vivem estudando obssessivamente para concursos. Muito pelo contrário: a imensa maioria desses 12 milhões está trabalhando duro para que a economia do país continue se movimentando e o investimento em preparação para provas é apenas parte do percurso desse brasileiro, ao longo de sua vida produtiva (sim, porque existe vida produtiva no serviço público!).

Problema seria se os concursos públicos cessassem de vez e os modos de seleção de pessoal para os órgãos públicos seguissem rumos diferentes, duvidosos, distantes da livre concorrência e do mérito da aprovação. Problema seria se o Estado comportasse todos esses 12 milhões que estão "correndo atrás", porque aí ficaria comprovado que o serviço público iria se transformar numa dessas políticas assistencialistas de eficácia questionável.

Sei que Leandro Vieira não intentou denegrir a imagem do servidor público, como também sei que entende a importância dos servidores para o país. No entanto, quando li o artigo tive a estranha sensação de que somos nós, os concurseiros e os já funcionários públicos, que forçamos os governantes a empanturrar os quadros públicos de gente inoperante, sancionando a publicação de editais, autorizando o preenchimento de mais e mais vagas, tudo isso ocasionando o "travamento" do nosso desenvolvimento econômico. Acho que foi somente uma sensação ruim, não se sustentou... Espero que não se sustente na cabeça dele também.

Em segundo lugar, que alguns gênios americanos criem empresas fantásticas que mudam os rumos da humanidade, é bem verdade, pois há muitas evidências. Agora, dizer que os gênios brasileiros se preocupam apenas em passar nos concursos públicos, acho que é minimizar muito, tanto os gênios quantos os concurseiros.  Falta de visão empreendedora não me parece ser culpa da "indústria dos concursos", até porque sabemos que existe lucro de todos os lados. Porém, por que não pensar também que outras instituições sociais podem ter um papel a desempenhar nisso aí (a escola, por exemplo)? Falta de visão empreendedora não me parece ser o estigma que todo concurseiro deva carregar, até porque ela pode também ser ensinada, treinada, aperfeiçoada. 

O terceiro e último aspecto que pode ser lembrado é quando o administrador diz que grande parte de nossos maiores talentos, pessoas capacitadas, enquanto se preparam para ingressar no serviço público em busca das "vantagens do Estado", acabam não desenvolvendo habilidades e competências essenciais na iniciativa privada, pois só adquirem "conhecimentos que são rasos" ("saber um pouco de tudo é o mesmo que nada: não provoca avanços na ciência, tampouco estimula a inovação e tampouco fomenta novos negócios").

Não creio que Vieira tivesse mesmo a intenção - novamente - de generalizar, e não teria como, posto que na seara dos concursos existem pessoas de todo o jeito, sejam elas de amplos ou curtos interesses. Por exemplo, há (1) o concurseiro passivo, talvez o mais "abominável" de todos: aquele que só está mesmo interessado em passar no concurso planejado e levar aquela "vidinha" sem riscos (empreendimentos promissores). Há (2) o concurseiro que pensa um pouco à frente: "estou estudando para esse concurso, mas não quero estagnar-me no tempo, pretendo fazer uma graduação, uma pós, alçar vôos maiores, buscar o meu espaço". 

Por fim, há (3) o concurseiro empreendedor, que muitas vezes é somente associado a uma classe que convencionalmente se tornou empreendedora, composta por "gurus" dos concursos (donos de cursinho, ocupantes de cargos públicos que viraram "modelo" para as escolas preparatórias ou mesmo os "treinadores de provas"). O concurseiro empreendedor pode ter uma vida alternativa similar a essas modalidades já testadas e comprovadas de atividade empreendedora. Ele pode exercer seu cargo público, ou ainda estar estudando para chegar lá, mas pode também desenvolver seus projetos pessoais de empreendendorismo, já que em muitos cargos públicos uma coisa não aniquila a outra e, portanto, é possível sim contribuir para alavancar a nossa economia.

Do mesmo modo, muita gente que um dia foi concurseira, hoje contribui para o avanço da ciência, a exemplo, de muitos mestres e doutores de diversos institutos de pesquisa ou instituições de ensino superior de todo o país, que continuam produzindo conhecimento, independente de integrar o funcionalismo público. Eu conheço muitos deles.

Concluo lembrando que quando usei a palavra "concurseiro" me referi a uma condição transitória do cidadão, porque ninguém tem isso como profissão, mas um estado. E por último, acredito que o concurseiro que investe seu talento para passar em um concurso público está provando que também sabe empreender, entendendo que a vida futura não irá se resumir aos saberes das provas. É perfeitamente possível que tudo o que ele fará depois de assumir o cargo servirá para determinar qual é de fato o seu grau de empreendendorismo (entendido aqui como algo além do aspecto econômico, pois inclui o intelectual, o social, o emocional, etc). Ademais, gente, pelo amor de Deus, nem os concurseiros nem o funcionalismo público podem ser culpabilizados por nossos supostos atrasos na ciência, na tecnologia ou na economia.

E Para que não se plante uma dúvida sobre se é melhor seguir a carreira privada ou a pública, fecho estas considerações com o pensamento de um leitor dos artigos de Vieira, que diz exatamente o seguinte:

"Digo-lhe uma coisa, ambas as escolhas envolvem vantagens e desvantagens, riscos e benefícios, no caso você é quem vai decidir quais vantagens quer obter e quais riscos você quer correr" (Antonio Ribeiro).

Sugiro ao leitor que agora leia os artigos citados e forme a sua opinião. Querendo defendê-la aqui ou mesmo lá, fique à vontade.

Por Alberto Vicente

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