Tabu: significados e estudos

Conheça um pouco mais sobre esta palavra que muitos já ouviram falar, mas nem todos sabem dos significados e ambivalências

O tabu está ligado à ruptura de determinados costumes imbricados culturalmente em uma sociedade. Por exemplo, conversar sobre sexo com os pais já foi considerado um tabu. Este é um termo cujo significado é permeado por ambiguidades e contradições. Refere-se ainda a tudo aquilo que tem caráter sagrado, mas também indica a proibição e profanação de algum costume dito sagrado.

Desta perspectiva antropológica, o tabu diz respeito a uma proibição de inspiração religiosa, um interdito a determinadas ações ou comportamentos que são considerados impuros, nocivos, danosos. Se praticados podem geram uma fúria e uma punição de origem sobrenatural.

Por outro lado, o objeto da restrição também é considerado um tabu. Por exemplo, se há algum tempo atrás o adultério era um tabu, uma violação a um voto sagrado do matrimônio, aquele que cometeu o adultério também era tido como um tabu e era isolado da comunidade. As pessoas evitavam manter contato com a pessoa, não só como uma maneira de puni-la, mas também porque havia uma espécie de medo de que ela fosse inspirar em outros a mesma conduta considerada impropria.

  • O Tabu segundo Freud

Em “Totem em tabu” (1914) Sigmund Freud, o pai da psicanálise, investiga as causas do sentimento de horror ao incesto a partir de uma pesquisa antropológica sobre as origens do tabu em comunidades primitivas da Austrália, onde discorre acerca de uma série de aspectos do totemismo e de como a infração aos procedimentos relacionados ao totem constituíam tabus dos mais sérios e antigos.

Vale ressaltar que totem se refere a um objeto, animal ou planta cultuado como símbolo sagrado e ancestral de uma coletividade. A religião advinda do culto ao totem é chamada totemismo. O totem é a referência que designa as coisas em sagradas ou profanas dentro da coletividade.

Freud faz duas observações importantes. Uma delas é que a existência de um tabu pressupõe o desejo em realizar tal ato. Se ninguém manifestasse vontade em fazer algo que uma comunidade entende como condenável, não haveria necessidade de instituir uma norma proibitiva. O tabu, dessa forma, advém do desejo em quebra-lo: “(...) onde existe uma proibição tem que haver um desejo adjacente (...)” (FREUD, 1914, p. 48).

A outra observação relaciona o repúdio ao incesto a aspectos similares aos da neurose, especificamente à fobia de toque, em que o objeto de asco é também de desejo. O desejo é recalcado (portanto, inconsciente) em virtude de um tabu e retorna em seu contrário.

Com base nos levantamentos de pesquisas antropológicas sobre totemismo e tabus que o envolvem, Freud construiu um mito que explicaria a origem do repúdio ao incesto. Antes de nós, espécie humana, teria existido uma espécie semelhante, que vivia em comunidade, sob a tutela de um primeiro pai. Este pai era o único que podia possuir as mulheres e nelas gerar filhos. Nenhuma cria deste pai era forte o bastante para desafiá-lo e reclamar o posto. No entanto, os filhos perceberam que juntos poderiam vencê-lo e dividir as mulheres da comunidade entre eles. Desta forma, o primeiro pai foi morto pelos próprios filhos, que ingeriram sua carne. As comunidades primitivas acreditavam que ingerir a carne do inimigo fazia com que seus poderes e sua força fossem também absorvidos.

No entanto, ao invés de celebrarem a conquista, os filhos foram tomados pelo sentimento de culpa. O pai, enquanto vivo, era objeto de raiva e ciúme; mas após sua morte, os sentimentos de amor afloraram, acompanhados de remorso. Este teria sido o primeiro assassinato em todo o mundo. Não havia, até então, norma pré-estabelecida que afirmasse sua proibição. A partir deste acontecimento, a morte ao pai tornou-se tabu e com o passar do tempo o totem substituiu este primeiro pai como referência do que se entendeu por tabu. Daí a proibição de casamentos entres indivíduos do mesmo totem, remetendo ao incesto, tendo em vista que os filhos do primeiro pai consideraram que não deveriam tomar para si as mulheres que antes eram de seu pai, pois entenderam que o ato que cometeram fora terrível, portanto, não deveriam obter ganhos com ele.

Assim, o tabu acerca do incesto seria mais antigo que os deuses, remontando a um período anterior à existência de qualquer tipo de norma moral, religiosa ou jurídica, sendo ele uma norma inconsciente. Os sentimentos ambivalentes pelo pai teriam estas mesmas raízes que Freud ilustra com o mito de Édipo. Até nosso tempo, o indivíduo que não consegue encontrar uma saída viável para superar o complexo de Édipo pode desenvolver algum tipo de neurose, psicose ou perversão, originados da disputa inconsciente da criança com a pessoa que desviou a atenção a ser dada pela mãe (ou a pessoa que exerce a função materna).