Matheus Pires, o motoboy humilhado, consegue emprego dos sonhos

Depois de um vídeo seu sendo agredido verbalmente durante seu trabalho como entregador, o motoboy humilhado, Matheus Pires, consegue emprego que sempre quis.

motoboy humilhado: foto de Matheus Pires vestindo camiseta branca e agasalho

Matheus agora trabalha como editor de vídeo na empresa Avellar. - Foto: João Rocha - Avellar/Divulgação

No início do mês de agosto, a internet ficou chocada com um vídeo de um motoboy sendo agredido verbalmente por um homem em um condomínio de Luxo em Valinhos, interior de São Paulo. O rapaz em questão era Matheus Pires Barbosa, de apenas 19 anos, que estava fazendo uma entrega de comida por aplicativo. Mas o ódio e a humilhação retratados no vídeo foram revertidos em oportunidades, porque o Matheus conseguiu um emprego numa agência e diz estar realizando um sonho.

Em entrevista à exame, o rapaz contou que começou a trabalhar como editor de vídeo júnior na agência de publicidade Avellar. Segundo Matheus, ele começou editando vídeos seguindo tutoriais do Youtube e já havia entrado em contato com Rapha Avellar, diretor da empresa que o contratou e também da Cria School.

“Quando o Rapha me ligou, depois que tudo isso aconteceu, vi que era aquele mesmo cara que me respondia no passado. Não tive dúvidas de que era essa a escolha. É o emprego dos meus sonhos”, contou. Matheus disse nunca ter pensado em fazer faculdade, mas, desde que conheceu o mundo dos vídeos, se apaixonou e descobriu o que queria fazer.

Agora, além do trabalho, o jovem ganhou de presente uma bolsa para estudar Marketing Digital na Cria School do próprio Rapha. “Vou ganhar essa visão ampla da publicidade como um todo, sem ter que passar quatro anos em uma faculdade tradicional, o que eu nunca quis para mim mesmo”, comentou Matheus que também relembrou cursos online que fez, “mas eram rápidos ou insuficientes”.

A vida antes do vídeo

Antes do vídeo viralizar, Matheus Pires trabalhou em vários lugares. Tentou oferecer seu trabalho como freelancer em plataformas online, mas não foi como o esperado. “Aí reclamavam que era caro, eu baixava o preço, até que eu fazia de graça mesmo porque precisava de portfólio”, explicou.

Como o sonho ainda não podia sustentá-lo, ele tentou se virar e foi empacotador de supermercado, auxiliar de escritório em uma transportadora e, por último, motoboy entregador de aplicativo. “Comecei a fazer entrega no ano passado para reforçar os ganhos. Trabalhava na moto na hora do almoço e à noite, quando saía da empresa. Quando fui demitido, neste ano, fiquei só como entregador”, contou.

A família veio de Arapongas, no Paraná, para Valinhos quando Matheus ainda era pequeno. Ele conta que os pais migraram em busca de oportunidades em fazendas de uva e, hoje, trabalham como caseiros e plantadores numa vinícola. Até então, o rapaz nunca havia sofrido nenhum tipo de agressão ou racismo.

Ao relembrar o episódio, ele disse que “eu entendi o que aconteceu ali, o cliente me viu e pensou: motoboy, pobre, negro. A verdade é que ele nem olhou na minha cara, não viu a cor da minha pele. Fez a associação entre uma profissão e uma cor, o que é muito racista. Ali eu vivi o que os negros vivem todos os dias”.

Conhecendo o código de conduta do aplicativo, no momento da agressão, Matheus preferiu não retrucar grosseiramente para evitar punição. “Mas eu também não podia deixar barato, sabe?”, pontuou e continuou dizendo “se eu não tomasse uma atitude, outro entregador passaria pelo mesmo no dia seguinte”.

Por ser testemunha de Jeová, ele contou que “outra coisa que me ajudou a reagir de um jeito manso foram os meus estudos bíblicos”. Dono de um bom coração, o rapaz se comoveu quando foi contactado pelo pai de seu agressor. “Fiquei com pena quando o pai dele me ligou e disse que ele é doente, me coloquei no lugar desse pai. Só que eu precisava dar o exemplo”, frisou.

Presente(s) e futuro

Depois de toda a polêmica e do sofrimento daquele dia, as coisas mudaram muito para Matheus Pires. O caso rendeu a ele dois milhões de seguidores no Instagram, um emprego e outros presentes de personalidades conhecidas. Mas não se vê como influenciador ou porta-voz dos entregadores, porque, segundo ele, “tem uns caras muito mais experientes que eu, fiquei um ano só nesse trabalho. Acho que o episódio, em si, já ajudou de alguma forma”.

Com certeza um impacto positivo foi gerado mesmo com tanta negatividade. “Hoje, quando encontro entregadores, eles me contam que estão ganhando mais gorjetas e estão sendo bem tratados. Fico muito feliz em ver que as pessoas estão finalmente entendendo a importância do entregador, ainda mais nessa pandemia”, afirmou.

Além do respeito, do emprego e visibilidade nas redes sociais, Matheus Pires ganhou duas motos novas, sendo uma do apresentador Luciano Huck e outra do humorista Matheus Ceará. A comunidade online também se moveu e conseguiu recolher mais de R$ 200 mil em uma vaquinha do Vooa. Agora, ele quer olhar para frente, trabalhar e crescer na carreira. “Fora do trabalho, gostaria de levar a palavra da Bíblia para mais gente e ajudar outros jovens como eu a entrar no mercado de trabalho. Também queria viajar, conhecer melhor o Brasil”, finalizou.

Isadora Tristão
Redatora
Nascida na cidade de Goiânia e formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás, hoje, é redatora no site "Concursos no Brasil". Anteriormente, fez parte da criação de uma revista voltada para o público feminino, a Revista Trendy, onde trabalhou como repórter e gestora de mídias digitais por dois anos. Também já escreveu para os sites “Conhecimento Científico” e “KoreaIN”. Em 2018 publicou seu livro-reportagem intitulado “Césio 137: os tons de um acidente”, sobre o acidente radiológico que aconteceu na capital goiana no final da década de 1980.

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