Mulheres negras recebem metade do salário de homens brancos

De acordo com pesquisa baseada em dados do IBGE, mulheres negras recebem os menores salários e também são as mais impactadas pelo desemprego.

mulheres negras: a imagem mostra uma mulher negra segurando cartaz em forma de balão de fala ao lado de homem branco. Ambos sentados numa mesa em ambiente de trabalho

A taxa de desemprego aumentou com a pandemia. - Foto: Nappy

O levantamento do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) divulgou que homens brancos chegam a ganhar o dobro ou mais que mulheres negras na mesma função. O estudo foi feito com base em raça e gênero dentro das seguintes ocupações: engenheiros, arquitetos, médicos, professores, administradores e cientistas sociais.

Numa escala geral, mulheres negras estão abaixo de homens brancos e negros, bem como de mulheres brancas, no quesito salário. A pesquisa foi realizada pelos pesquisadores Beatriz Ribeiro, Bruno Komatsu e Naercio Menezes Filho, seguindo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram analisados os resultados obtidos entre 2016 e 2018.

"Mesmo entre os que estão na mesma profissão, sempre há um diferencial alto de salário em função da cor ou do sexo, em que os homens brancos estão sempre ganhando mais", afirmou Naercio Menezes Filho, que é o coordenador da Cátedra Ruth Cardoso no Insper. "Isso aponta para a existência de discriminação no mercado de trabalho”, ratificou.

Diferença salarial

A pesquisa mostra que o salário de uma mulher negra que cursou ensino superior em instituição pública é de R$ 3.047,51. Esse número diminui para aquelas que possuem diploma de graduação em universidade privada, sendo o valor médio de R$ 2.902,55. Já homens brancos recebem em torno de R$ 7.891,78 quando formados em faculdades públicas e R$ 6.626,84 quando egressos de instituições privadas.

Segundo diretora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), Cida Bento, "a mulher negra, em todos os índices, seja na área de educação, trabalho, saúde, é sempre a base. E isso tem a ver com essa combinação, essa intersecção, de gênero e raça, que complica mais a situação. A discriminação que já incide sobre as mulheres de forma geral, incide mais fortemente sobre a mulher negra."

Dessa forma, o levantamento mostra abismos de pagamento para homens brancos e mulheres negras nas seguintes áreas com formação em universidades públicas:

  • Medicina: R$ 6.370,30 para mulheres negras e R$ 15.055,84 para homens brancos;
  • Ciências Sociais: R$ 4.141,69 para mulheres negras e R$ 8.814,05 para homens brancos.

"É preciso trazer uma reflexão para toda a empresa. Dentro das instituições, todos sabem que a discriminação é crime, mas o que faz uma pessoa entender que a mulher negra pode sempre ficar no mais baixo patamar de determinado cargo e o homem no mais alto"?, questionou Cida.

Empreendedorismo das mulheres negras

De acordo com a fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa, "muitas mulheres negras empreendem pela lógica da necessidade. E parte ainda tem um alto grau de escolaridade. Até as mulheres negras com doutorado não conseguem entrar no mercado de trabalho formal e aí elas empreendem, na lógica do vender hoje para comer amanhã”.

Isso demonstra que o mercado de trabalho não dá abertura para mulheres negras e, quando dão, os salários são muito baixos. Portanto, empreender se torna uma forma de aumentar a renda. De acordo com Naercio, a falta de oportunidades para essas mulheres gera um custo elevado para a economia do Brasil. Já nos Estados Unidos, a inserção da população negra em cargos qualificados colaborou para o desenvolvimento econômica do país.

Ele explica que “a mesma coisa pode acontecer aqui no Brasil. É muito raro encontrar um médico, dentista ou advogado negro, tanto homem como mulher. Talentos estão sendo desperdiçados na sociedade brasileira. É importante incorporar esses talentos para que a gente tenha um crescimento no futuro porque a produtividade brasileira está estagnada nos últimos 40 anos."

Índices de desemprego

As oportunidades para pessoas negras se mostram menores em relação a brancos e a diferença aumentou muito com os impactos da pandemia de coronavírus. Segundo a Pnad, 2020 teve o maior nível de desemprego desde 2012, quando a pesquisa teve início.

"Os setores onde está tendo a maior quantidade de perda de vagas, maior aumento de desemprego, são setores onde majoritariamente estão os negros. São setores com os piores salários. O comércio é um setor que não paga bem, e onde a maioria são negros", afirmou o economista do Ceert Mário Rogério Silva.

Além disso, Silva explica que os trabalhos informais foram ainda mais afetados e estes têm mais presença de negros. "Por exemplo, o trabalho doméstico, que tem uma participação de mulheres negras muito forte. Ou o setor de serviços", disse Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

Os dados mostram que a taxa de desemprego geral para trabalhadores de carteira assinada chegou a 13,3%, sendo que dentro do quantitativo de desempregados estão:

  • Pretos: 17,8%;
  • Pardos: 15,4%;
  • Brancos: 10,4%.

Os especialistas acreditam que esses dados só poderão mudar se houver igualdade de oportunidade para negros e brancos não só no mercado de trabalho, mas desde a infância. Segundo Naercio, "é preciso igualar as oportunidades na vida. Desde o nascimento, mulheres e homens negros têm que ter as mesmas oportunidades para realizar os seus sonhos do que mulheres e homens brancos".

Isadora Tristão
Redatora
Nascida na cidade de Goiânia e formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás, hoje, é redatora no site "Concursos no Brasil". Anteriormente, fez parte da criação de uma revista voltada para o público feminino, a Revista Trendy, onde trabalhou como repórter e gestora de mídias digitais por dois anos. Também já escreveu para os sites “Conhecimento Científico” e “KoreaIN”. Em 2018 publicou seu livro-reportagem intitulado “Césio 137: os tons de um acidente”, sobre o acidente radiológico que aconteceu na capital goiana no final da década de 1980.

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