Conversa franca sobre cursos, concursos e fracasso

O que é o fracasso hoje? E o sucesso? O que a sociedade espera do concurseiro? E o que o concurseiro deve esperar de si? Reflita conosco.

Lidando com concursos há um certo tempo, fui levado também a refletir sobre a "máquina das preparações para concursos". Comecei a questionar se talvez não exista mesmo algo de errado no modo como estão sendo conduzidos os cursinhos para concursos na atualidade. Na opinião do psicólogo e consultor Leonardo Del Puppo Luz, há algo de errado sim, pelo menos em parte. Ele lembra que o cursinho, como Instituição, é uma coisa relativamente antiga no Brasil. Teve seu inicio com os vestibulares e agora está mais em voga ainda, com o advento do Enem. Todavia, acredita que "o preparatório para concurso acrescentou situações que forçam as pessoas aos seus limites. De certo modo depreciam muitos que ali se aventuram, pois ali a mentalidade e a composição de discentes é outra". Acompanhemos alguns aspectos dessa discussão através dos tópicos que se seguem.

Os professores de cursinhos

Acredito que a própria estrutura do "corpo docente" das instituições de preparação, de certa forma, leva o debate para um caminho especial. Del Puppo chama a atenção para composição desse "corpo docente", formado por auditores, juizes e procuradores, principalmente. "Esses cargos ligados às carreiras jurídicas são vinculados a certo status quo característico do próprio do Direito. Percebe-se uma "idolatria" burra por certos professores que tem sua força de convencimento amplificada pelos cargos que exercem na Administração Pública. Temos a soma de um status quo do professor (aquele que sabe) com o status de juízes (aquele quem tem super conhecimentos e saberes solidos, quase indubitáveis)", analisa o psicólogo.

A pressão dos concurseiros diante dos "dogmas" das preparações

A conformação educacional hoje vigente, de certo modo, cria uma força ("pressão") muito grande sobre os alunos (concurseiros). Assim, é evidente que muitos desses "professores/doutores" lembrados anteriormente afirmam certas posturas no campo da educação (quantas horas estudar, por exemplo) que assumem verdadeiros sentidos dogmáticos para os alunos. " 'Se o cara tá falando é porque ele tá certo; eu é quem sou fraco mesmo'. Eu ouvi tal frase de inúmeros alunos e clientes", relembra o consultor.

O fato é que, segundo Leonardo Del Puppo, os cursinhos parecem mesmo não privilegiar a singularidade dos alunos e a maneira como cada um pode lidar com a carga de matérias e o stress dos concursos. "Me parece que o sistema quer 'eliminar' os 'fracos' e os não 'estudiosos' por meio de formas camufladas de desmotivação".

Ingressar na administração pública é uma questão de amadurecimento pessoal e intelectual

Ainda é muito recente no Brasil uma problematuização dos espaços educacionais criados pela "indústria dos concursos" (se é que podemos qualificar assim, talvez até preconceituosamente). Na opinião do psicólogo entrevistado, faltam projetos que busquem problematizar esses espaços educacionais, uma vez que neles também se promove o saber, a intelectualidade e o cidadão. Ou seja, não são espaços sem sentido, pois falam simuladamente sobre problemas sociais severos, em especial a questão da empregabilidade. E prossegue dizendo:

"No mundo do trabalho mundial é relativamente 'estranho' as pessoas buscarem tão radicalmente uma vaga na administração pública. Ninguém cresce e passa sua infância e adolescência sonhando em ser Servidor Público. Penso que entrar na administração publica seja uma questão de amadurecimento pessoal e intelectual, e não uma única forma de empregabilidade digna, como se tem percebido no imaginário social e coletivo.

No entanto, como nada há sobre este lugar quando se pensa em pesquisa cientifica, tem-se a sensação que são apenas mais alguns lugares de comércio, um comércio da intelectualidade que gera riqueza para algumas castas sociais. Não estou afirmando isto, apenas acho que ainda não há muitos estudos sobre tema que possam nos dizer algo concreto.

E sobre a questão do fracasso?

Para encerrar nossa reflexão, perguntei ao psicólogo como ele vê a questão do "fracasso escolar" no atual panorama de preparações para concursos, ou se essa visão hodierna de "fracasso" nos concursos/seleções é um indicativo de exclusão social (ou de outro tipo de exclusão velada)?

Leonardo Del Puppo: "Parabéns pela pergunta. Olha, como já lhe disse, os estudos acerca da presença desses cursinhos no Brasil é recente. No entanto, com base em pesquisas no campo da educação é possível dizer que o "fracasso"(a partir do prisma dos cursinhos)  nos cursinhos é uma consequência direta e imediata da nebulosa atenção dada aos estudos durante nosso inicio estudantil.

A precarização da questão da leitura e de outras formas de estudo fica transparente na formação dos alunos/pacientes. O estudar, portanto,  é institucionalmente marginalizado.

Podemos assim pensar que uma pessoa marginalizada nas formas de aprendizagem e principalmente quantos aos modos de estudos será possivelmente, com raras exceções pessoais, marginalizada socialmente. O Estudar não é garantia de sucesso financeiro, mas é garantia de maneiras de pensar e entender o mundo que garantem caminhos infinitos de sucessos afetivos e sociais, por exemplo. Esses, infelizmente, não serão valorizados  socialmente, já que o viés econômico define sua forma de ascensão/reconhecimento social.

Pense na qualidade das maneiras de atuação política hoje. Consegue imaginar alguém atuante politica e partidariamente sem que o estudo faça parte da vida dela?  Características pessoais fortes em um determinado momento da vida da pessoa deverão ser acopladas ao estudo. Isso é inevitável. Veja o caso do Ex-Presidente Lula. É muito claro o seu amadurecimento no jeito de falar em comparação ao início da sua vida política. Com certeza, em determinado momento, ele foi obrigado a encarar alguma forma de aprendizado/estudo e com certeza isso não foi prazeroso, foi uma necessidade.  Isso muda a relação toda com o verbo estudar. [Seu governo também demostrou ter bastante preocupação com a educação, em todos os níveis]".

O psicólogo concorda, portanto, que hoje é preciso dosar aquilo que nos chega pronto, bitolado com aquilo que somos, ou que construímos. Trata-se de uma tendência até naturalmente desenvolvida com o passar dos anos. "Por isso é extremamente salutar ouvir experiências de pessoas com mais percursos em determinadas áreas e com um história de vida diversificada. Esse tipo de atitude (aprender a ouvir) é o que pode nos facilitar no desenvolvimento dessa dosagem. 

Exemplo disso  é o livro "Como passar em Concursos", de William Douglas. O livro é denso do ponto de vista de quantidade de páginas. Contudo,  as partes ricas e interessantes do livros são acerca dos momentos em que o autor nos fala das suas experiências de vida e como tal experiência se desenvolveu em diversos momentos de dificuldade. Observando com atenção, constatamos que isso é feito durante toda obra, isto é, não há um capitulo especifico sobre isso, mas são utilizados durante os capítulos.

O que nos entristece é que a leitura dessa obra pelos alunos é feita no sentido de se buscar obcecadamente uma "fórmula mágica", o "caminho das pedras" que o autor usou para conseguir suas aprovações.  Em resumo, as pessoas querem algo pronto (bitolado/testado/testemunhado/bem sucedido). Se jogar à experiência e ao teste do que pode ou não funcionar de acordo com o nosso modo personalista de ser demanda tempo e gasto emocional.

Isso é agravado pelos jargões populares deste meio dos concursos: o estabelecimento de metas temporais sem uma análise real das condições de cumprimento do objetivo. Por exemplo: a pessoa estabelecer um prazo de dois anos para passar em um concurso para juiz ou procurador do MPU. Com base em que ela define estes prazos? Seu percurso de vida pessoal, acadêmico e de estudo permitem mensurar isso?  Fazendo um breve paralelo isto seria algo como definir um prazo para começar a "amar" alguém ou aprender um esporte complexo começando do zero. Definir um prazo absolutamente fora das condições reais e concretas de sua forma subjetiva e emocional. Fazer isto é se agarrar intimamente ao significado popular da palavra FRACASSO".

Redação e Edição: Alberto Vicente (alberto@concursosnobrasil.com.br)

Nossos agradecimentos ao psicólogo Leonardo Del Puppo Luz, pela longa entrevista concedida recentemente.

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