Marcelo Mozzilli: 52 anos e muita disposição para estudar

Marcelo Mozzilli de Freitas, de 52 anos, resolveu ficar o máximo de tempo possível só estudando para concursos. Veja os resultados.

Marcelo Mozzilli de Freitas, de 52 anos, era um servidor em comissão da Câmara Municipal de São Paulo, que não aguentava mais a loucura da capital paulista e resolveu arriscar tudo por melhores oportunidades. Pediu exoneração e se mudou para a casa da mãe, em Curitiba. Foi lá que fez um planejamento financeiro para ficar o máximo de tempo possível somente estudando para concursos, sem trabalhar, pois já tinha sentido “o gostinho” de ser funcionário público.

Em dezembro de 2015, Marcelo exauriu todas as economias de que dispunha (investindo em preparação, claro) e precisou vender o carro. Não demorou muito para que esse recurso também acabasse. "Agora estou com o apoio da família, aguardando uma nomeação em um dos concursos em que já fui aprovado", conta Marcelo, em março de 2017.

Confira o relato desse concurseiro, digamos, atípico.

A trajetória no mundo dos concursos

Cheguei a Curitiba no começo de março de 2015 e, dois dias depois, comecei a estudar intensamente. Entrei em um curso presencial, mas não gostei pois perdia muito tempo na locomoção. Daí, resolvi me inscrever em cursos online.

De março de 2015 para cá (março de 2017), já fiz 19 concursos, fui aprovado em 12, reprovado em seis e aguardo o resultado de um (TRF-2). Nessa trajetória obtive, entre os concursos em que fui aprovado, dois primeiros lugares. O primeiro veio no CRN-PR (Conselho Regional de Nutricionistas do Paraná), em 2015, e o segundo - em janeiro de 2017 - quando fui o primeiro colocado no concurso para Secretário de Diligências (Oficial de Promotoria) do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Também fui terceiro colocado na DPU - PR (2016), quarto colocado na EBSERH-PR (2015), quarto colocado no TRE-AP (2015), décimo colocado no TRT-MG (2015 - região de Uberlândia). Essas são as classificações mais expressivas.

Fome de estudar

Comecei a estudar com um apetite voraz, umas oito horas por dia. Porém tive que recuar, pois comecei a sentir muitas dores de cabeça e dores musculares, consequência de alguns problemas de saúde que já tinha. Nesse momento, reduzi minha carga de estudo para umas cinco horas por dia, e com o passar do tempo fui aumentando gradativamente.

No quarto trimestre de 2015 percebi que era possível me aprofundar nos estudos para focar na aprovação em 1º lugar em um concurso de grande porte. Para isso, fiz um planejamento bem detalhado, focando principalmente na identificação e correção dos meus pontos fracos. Apliquei esse planejamento no concurso da DPU que foi em janeiro de 2016 e bati na trave: 3º lugar, um excelente resultado.

Mas o meu foco era o 1º lugar.

Em julho de 2016 saiu o edital do MP - RS (Secretário de Diligências) e percebi que tinha mais de cinco meses para me preparar. Então comecei a colocar em prática o meu planejamento prévio, realizando bem antes do edital ser lançado, que se constituiu basicamente das seguintes partes:

Fase de pesquisa

Nessa etapa, pesquisei a banca examinadora, pois saiu um edital de formação da banca com os nomes dos professores que estariam responsáveis pela elaboração das questões. Pesquisei cada um deles, cheguei a ler um TCC de uma aluna que um dos professores da banca era o orientador. Queria ver a linha que cada um seguia, as preferências dos tópicos, os pontos de “pegadinha” que cada um utilizava. Baixei todas as provas anteriores do cargo em questão e do cargo de Agente Administrativo, as quais eram bem parecidas.

Com as provas anteriores em mãos, dividi as questões de cada disciplina em tópicos. Exemplo: direito administrativo, dividi em licitação, atos administrativos, improbidade etc. Com isso, pude ver quais eram os tópicos mais cobrados pelos professores que faziam parte da banca. Muitos concurseiros erram nesse ponto, estudam “todo” o conteúdo do edital (até aqui está certo), mas não dão ênfase aos tópicos mais “queridos” pela banca. Com esses dados em mãos, fui para a próxima fase.

Fase de separação dos materiais

Separei o conteúdo programático do edital e a lista que fiz dos tópicos mais cobrados pela banca. Baixei todas as leis, decretos e provimentos que constavam no edital, separei todas as videoaulas que eram pertinentes ao conteúdo já selecionado, organizei meus materiais de escritório (canetas coloridas e esferográficas, pastas, prateleiras etc), fiz meu horário de estudo (como se fosse horário de trabalho) e avisei aos familiares, amigos e a namorada que iria entrar em um período de estudo intenso (quase sem convívio social).

Somente nessa pesquisa e separação dos materiais investi cerca de 10 dias!

Fase de Base

Nessa fase, lia as leis e ia grifando as partes mais importantes, além de assistir as videoaulas e elaborar meus resumos. Não dei importância aos tópicos mais cobrados pela banca, fiz um estudo "total", conforme estava no conteúdo do edital. Depois de cada tópico, fazia de 10 a 20 questões específicas sobre o tema estudado.

Método Rotativo de estudo

Criei esse que eu chamo de "Método Rotativo de Estudo", que basicamente se resume ao seguinte: com a lista das matérias já divididas em tópicos, estudava em torno de 30 a 45 minutos cada tópico e fazia questões e assim sucessivamente. Não vinculava a matéria a um determinado dia da semana, pois imprevistos sempre aconteciam e isso fazia com que eu “pulasse” a matéria que estava determinada para aquele dia ou jogasse essa matéria para o dia seguinte.

As questões são o ponto forte desse método que estou explicando. Das questões que eu errava saiam as listas de “Tópicos a Reforçar”. Nesse momento, ia identificando meus pontos fracos e corrigindo-os. Quando chegava “a vez” desse tópico (que eu errei nas questões) no Método Rotativo, eu dava ênfase no estudo colocando um pouco mais de tempo ou fazia uma pesquisa na internet sobre ele.

Fase Específica

Já com as leis grifadas e a maioria dos resumos das videoaulas prontos, dava ênfase aos tópicos selecionados na fase de pesquisa, refazia minha lista só com os tópicos preferidos da banca. Com essa nova lista, lia somente os resumos e os pontos grifados da "lei seca" e só ia para uma videoaula se tivesse muita dúvida ou dificuldade de compreensão. Nessa fase, aumentava o número de questões para 20 a 30, e fazia um simulado por semana.

Fase Reta Final

Aqui eu só fazia questões, de acordo com a lista do Método Rotativo. Só ia para leitura dos pontos grifados da "lei seca" ou para meus resumos se sentisse muita dificuldade em algum tópico. A prioridade era a resolução de questões, e sempre fazendo a lista dos “Tópicos a Reforçar”. Nessa fase, fazia uns oito simulados.

Fase de Sprint Final

Nesse momento, fazia somente uma leitura rápida (rápida mesmo, “passando o olho” nos resumos ou na lei seca já grifada) e resolvia de 5 a 10 questões, no mesmo sistema do Método Rotativo.

O ponto mais sensível dessa fase é a identificação do cansaço. Eu descansava quando o corpo pedia, não forçava, principalmente nos sete dias anteriores à prova. Percebi que estava caindo (no meu desempenho) na segunda-feira que antecedeu a prova.

Então, reduzi a carga de estudo e descansei na segunda e terça. Obviamente que estudei nesses dias, mas descansei mais do que estudei. Fiz isso para retomar meu ritmo na quarta-feira e chegar ao ápice no domingo, dia da prova. Deu certo.

Acompanhamento de Desempenho

No meu controle diário de estudo, ia dando nota de desempenho diário que vai de zero a cinco, e com isso eu ia monitorando meu desempenho, que é inversamente proporcional ao cansaço. Ou seja, quando via que o cansaço começava a aumentar e o desempenho começava a cair, era hora de frear a carga de estudo.

Prova

Tracei uma estratégia específica para fazer a prova do MP-RS. Como na fase de pesquisa identifiquei que a professora responsável pela matéria de português era rigorosa nas questões de interpretação de texto, e consequentemente as questões seriam mais demoradas para resolver, fiz primeiro as outras matérias. Fazendo português por último, tive a sensação de ter “todo o resto do tempo da prova” e isso foi psicologicamente favorável no meu desempenho.

Outra estratégia que usei foi usar as duas cores de caneta que o edital permitia, com a caneta azul eu marcava as partes do texto (que foi impresso com tinta preta) que ficavam bem mais visíveis e ajudavam a identificar mais rápido a resposta, e com a preta marcava as respostas.

Além disso, fui marcando as respostas na folha de resposta assim que resolvia uma questão. Não deixava (como todos fazem) para marcar tudo no final, pois, como já tinha feito isso em outras provas, sabia que isso me daria mais uns 10 a 15 minutos de vantagem.

Também fiquei atento à ingestão de líquidos, pois quanto mais líquido eu tomasse mais vontade ir ao banheiro e cada ida ao banheiro consome o tempo de 1 a 2 questões.

Prestei atenção até no meu café da manhã. Não fui ao café do hotel em que estava, levei frutas e sanduíche de pão integral feito na minha casa. Antes de provas eu não como muito, nem como nada que não estou acostumado. Levo chocolate e vou comendo aos poucos durante toda a prova.

O resultado disso tudo

Sei que se você chegou até aqui, considerando a extensão do meu relato, é porque realmente precisava saber para que esse detalhismo todo me serviu.

Pois bem: dos 100 pontos possíveis eu fiz 85,75 pontos pelo gabarito preliminar. Como houve mudanças no gabarito, acabei no final perdendo dois pontos. Mas mesmo assim fiquei com uma vantagem de umas 5 questões na frente do segundo colocado!

E a convocação?

Se o órgão vai chamar? Não sei. Com as incertezas políticas e orçamentárias que estamos passando, não dá para ter certeza se vão chamar ou quando vão chamar.

Por mais que alguns possam achar ambiciosa demais, ou até mesmo prepotente demais, minha estratégia de perseverança é um pouco diferente da maioria: mudei meu paradigma de “estudar até passar” para “estudar para passar em primeiro lugar e só parar quando tomar posse”.

Você precisa fazer o mesmo que o Marcelo fez?

A resposta mais óbvia para esta pergunta é: NÃO necessariamente, a não ser que tenha condições de fazê-lo. O próprio Marcelo reconhece que sua experiência pessoal não pode ser encarada como modelo exato a ser seguido pelos concurseiros. Até porque ele mesmo sabe que uma grande parte dos candidatos a concursos públicos pelo Brasil é composta por gente que precisa encontrar tempo para realizar diversas tarefas diariamente. Ou seja, são pessoas que vivem muitas vezes o dilema de conciliar a necessidade de sobrevivência material ao sonho de ser aprovado.

Não é a maioria dos concurseiros que tem condições, na atualidade, de abrir mão de trabalho para somente estudar. Por exemplo, há candidatos que estão cursando uma graduação que muitas vezes tomam o tempo necessário para estudar com afinco para os concursos. Outros que, por serem pais de família ou por necessitarem cooperar com o orçamento familiar, não têm plena condição de ter essa dedicação que o Marcelo teve, de 100% e em um curto espaço de tempo (há concurseiros que estão estudando há muito mais tempo para conquistar uma vaga e ainda não chegaram lá...).

Mas esperamos que a partir desse relato muitos candidatos se sintam motivados e possam adaptar as dicas do Marcelo para as suas vidas. Lembre-se de que, com determinação, seriedade, esforço e algum investimento, é possível alcançar a tão esperada aprovação.

Acompanhe o canal do Marcelo Mozzilli no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=fSyTFJywumY&t=5s

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